Amamentação com desmame natural: por todas as razões. E por mais uma…

A Maria nasceu pequenina. Muito pequenina. Às 34 semanas, já não estava a crescer na barriga, e foi preciso nascer. Num parto relâmpago, nasceu com apenas 1,330 kg. Foi para a incubadora, durante uns dias. Ao 5º dia, pude finalmente pegar nela, e tentar amamentar. E correu bem. Correu logo bem, era por aquilo que ela tinha esperado estes longos dias. Viemos para casa ao fim de 21 dias, e a amamentação continuou, tranquilamente. Sempre sem grandes aumentos de peso, mas o suficiente para ninguém duvidar que era por ali o caminho. Aos 12 meses, pesava 6,400 kg. Análises para confirmar que estava tudo bem, detetaram uma anemia ligeira, prontamente combatida com sucesso. E por aí fomos, crescendo devagarinho, desenvolvendo normalmente. Os 2 anos chegaram e passaram, tínhamos cumprido as recomendações da OMS, amamentar por um mínimo de 2 anos, sempre que possível. Agora, seria até ela querer.

Aos 2 anos, a Maria começou a frequentar o desporto infantil aqui na terrinha, juntamente com o mano. Já no ano anterior queria participar, ficou muito feliz de finalmente fazer parte da equipa.

Depois do Carnaval, a Maria começou a não querer participar tão ativamente nos treinos. Corria um pouco, e vinha refugiar-se na sua maminha. Com alguma insistência, lá corria mais um pouco. O caminho de ida e volta para o carro, começou a ser feito ao colo, em vez de correr com os outros meninos. Em casa, notava-a muito chorosa. Qualquer toque do irmão, por mais pequeno, desencadeava uma crise de choro, prontamente consolada na maminha. “Estão-lhe a nascer os molares, anda mesmo irritada…”, era o que me passava pela cabeça.

Um dia, chegou ao pé de mim, com sangue na mão. Um corte em papel, daqueles minúsculos, resultou em 10 minutos a pingar sangue. Comentei com o meu marido, mas não pensei mais nisso.

E começou com febre. Febre, como têm as crianças com tanta frequência. Febre baixa, mal chegava aos 39ºC. Passou um dia, dois, três, a febre ia e vinha, “dentes, outra vez”. Ao 4º dia acordou sem febre, “óptimo, passou”. Mais dois dias, a febre de volta. Ao 3º dia, já acima dos 39ºC, foi observada pelo médico de família. “Não lhe vejo nada, vamos aguardar mais 2 dias”. Passados mais 2 dias, regresso ao médico. “Não deve ser nada, mas vamos fazer análises. Às 14h ligo, para lhe dizer o resultado”. E o telefonema chegou. “A Maria tem de ir ao hospital, tem de repetir as análises, têm alguns valores alterados, parece ter anemia, mas não tem infecção”.

Ainda sem pensar muito, fomos a caminho do hospital. Análises repetidas, o resultado tardava em chegar, apesar da urgência pediátrica deserta. Até que a médica veio falar connosco. O instante em que a vida mudou. “Pais, nós achamos que a Maria tem leucemia. Tem de ficar internada, fazer transfusão de sangue e de plaquetas, e ir amanhã ao IPO”.

Foi a primeira de muitas noites em claro. No internamento de pediatria, a primeira coisa que me ocorreu, foi pedir para a porem numa cama de adulto, apesar do seu diminuto tamanho, para a poder amamentar e dormir com ela. Pedido prontamente aceite pela equipa, a quem estarei eternamente grata.

No dia seguinte, pouco passaria das 9h da manhã, quando chegámos ao IPO de Lisboa. Foi uma manhã difícil, porque como teria de fazer um exame em jejum, com anestesia geral, não podia fazer a única coisa que a acalmava, mamar…

Feito o exame, ao início da tarde, finalmente luz verde, pode voltar a mamar, ainda no bloco operatório. Alguma estranheza, mas nenhuma oposição, especialmente ao verem como a acalmava…

Final da tarde, vem a confirmação do diagnóstico. Leucemia Linfoblástica Aguda. A mais comum na infância, e a de melhor prognóstico de tratamento. Felizmente. E como dizer felizmente, parece estranho, neste contexto… Estavam explicadas as dores, que a faziam chorar por tudo, o cansaço, o sangue a pingar…

O IPO passou a ser a nossa casa, nos 29 dias seguintes.

O primeiro pedido, tal como no hospital local, foi que nos permitissem dormir juntas, numa cama grande. Também concedido, sem piscar os olhos sequer.

O internamento, primeiro numa enfermaria com mais meninos, passou a ser num quarto de isolamento, ao 4º dia. Suspeita de pneumonia, que nos deixou em pânico. Foram 25 dias de isolamento, no quarto 3. A Maria, eu, o pessoal do serviço, as visitas do pai (que se desdobrava entre o trabalho e a assistência ao nosso mais velho). As visitas pelo vidro da janela. E as minhas Doulas, companhia constante dos dias em que o pai não podia vir. E mama. Muita mama. Dias inteiros, deitadas lado a lado, em que era a única fonte de alimento e consolo.

“Mãe, o que é que a Maria comeu hoje?”, pergunta diária dos enfermeiros. “Nada, a Maria não comeu nada”. “Mas mamou?”. “Sim, passou o dia a mamar.”, “Então, isso já é alguma coisa. É muito bom, porque os que não mamam, não comem mesmo nada”.

E continuávamos. Quando todo um percurso para trás faz sentido. Como eu estava feliz, no meio de tudo, por nunca ter cedido à tentação de terminar a amamentação por minha iniciativa. Tivesse partido dela, e estaria em paz. Mas, e se tivesse sido eu…? Felizmente, não aconteceu, e continuámos.

O tratamento inicial, o tal mês de internamento, é chamado de “indução”, e serve para literalmente fazer o “reset” de todo o sistema imunitário. Espera-se que fazendo isto, sejam eliminadas as células malignas, no entanto levando as boas embora também. E depois espera-se. Espera-se que o sistema se auto regenere, durante esse tempo. As análises, feitas de 2 em 2 dias, vão acompanhando essa evolução. Que no caso da Maria, aconteceu devagarinho. Muito devagarinho. Sair do isolamento não era opção. 25 dias num quarto, deixam mossa, para uma criança de 2 anos. O cansaço provocado pela quimioterapia, não é fácil de lidar. Aos poucos, deixa de querer circular pelos 8 metros quadrados do quarto. Depois, já nem se quer sentar no sofá. Passa os dias deitada, um corpo pequenino, numa cama enorme. O cabelo, esse, desapareceu em 3 dias, cerca dos 10 dias de internamento. E aprende-se a gostar, a beijar a toda a hora aquela cabecinha macia, mais suave que a de um recém-nascido. Não há cabelo, mas há vida. Estamos aqui, e continuamos a batalhar. E há mama, que tudo cura, e tudo acalma.

Um dia, a médica assistente entra pelo quarto, e diz as palavras já adiadas há uns dias: “Boas notícias, a Maria tem alta!”. E voltamos para casa. Para continuar o isolamento, recomendações expressas de não receber visitas, nem sair à rua. Passaram-se ainda 10 dias, antes que a Maria voltasse a andar. Como um bebé pequeno, primeiro um passinho, depois outro, numas perninhas bambas e emagrecidas.

Regresso ao IPO, para repetição do exame inicial. Boas notícias: a leucemia está em remissão! Conseguimos, passámos o mais difícil!

Nova fase do tratamento, quimioterapia intensiva, 24 horas de medicação a correr. “Esta fase é muito difícil. Muitos meninos voltam a ter de ser isolados, pode levar muitos dias até ter alta.”

Mas não. Ao fim de 4 dias, quase batendo recordes, estamos de novo em casa. Neste segundo internamento, um incidente: o cateter intravenoso, que lhe tinha sido implantado para facilitar o acesso a uma veia principal, sai acidentalmente. Nova ida ao bloco operatório, já a quarta.

Ao sair do bloco, a seguir à colocação do novo cateter, tenho a única situação em que me foi posta em causa a amamentação. Ao fim de muitas horas em jejum, a Maria está muito nervosa, quando acorda da anestesia geral. Na sala de recobro, já está à mama, ininterruptamente há mais de 3 horas. Eu queixo-me do cansaço. E uma enfermeira, novinha, sem filhos, comenta algo como: “Isso é da educação. Já está na hora de deixar a mama.”

A mãe leoa salta para fora: “Tem noção do que está a dizer? Viu quantas vezes a Maria teve de ir para os cuidados intensivos (zero)? Viu-a vomitar alguma vez? (zero) Viu-a internada dias a fio, na quimioterapia intensiva? Consegue separar isso do facto de ser amamentada? É que eu não…” Espero ter sido a última mãe a ouvir algo daquele nível…

E a partir daqui, entrámos na nossa nova normalidade. Visitas semanais ao IPO, todas as segundas feiras. Análises, consulta, quimioterapia. Duas horas e meia de viagem para cada lado, mais uma média de 8 horas passadas no IPO. O verão foi passado a dormitar na sala de espera das crianças, ambas deitadas no sofá, a fazer as nossas sestas. E a mamar, muito, sempre. Muitos dos procedimentos, pensos, injecções, quimioterapia, ou eram feitos na mama, ou seguidos de mama. Invariavelmente, sempre com o apoio de todos os profissionais.

De 9 em 9 semanas, as temidas punções lombares, em que a quimioterapia é injectada directamente na coluna. A seguir a cada punção, é preciso repousar durante uma hora, deitada. Como a convencer a ficar quieta…? Na mama, a relaxar… As punções trazem efeitos secundários mais fortes, que a deitam mais abaixo, e aumentam a necessidade de descanso, e de mama, claro.

O Natal, trouxe-nos uma prenda: terminaram as visitas semanais ao IPO. Agora, apenas é preciso ir um dia a cada 3 semanas. Nas segundas-feiras de intervalo, uma visita rápida ao hospital local, e pronta para regressar a casa, com menos cansaço.

O cabelo, que entretanto tinha começado a crescer, cai todo novamente, a seguir ao Natal. Mas agora já não nos assusta, já sabemos que volta.

E continuamos. O protocolo completo do tratamento deste tipo de leucemia dura aproximadamente 25 meses. Faltam cerca de 9 meses. A Maria já fez 4 anos. Está uma menina linda, faladora, com uma cabeça cheia de cabelo castanho claro ondulado. E mama. Continua a mamar. A maioria dos dias, já é apenas para dormir, ou quando se magoa. Já está uma menina crescida, que nem chora quando a picam. Fecha os olhos, estremece, e tudo permite. “Porque já fiz 4 anos, já sei fechar os olhos”. E, de seguida, pede mama.

Para o Brian, amigo de sempre e companheiro de tantos dias de IPO, amamentado do primeiro ao último dia de vida.

 

Tânia Costa

Setembro 2016

Amamentação Bebé Parentalidade

6 comentários

6 comentários

  1. Clara Lebre de Freitas comentou:

    12 Outubro, 2016 às 11:12

    Tânia não sabia nada disso. Como mãe arrepiei-me toda, chorei e pensei que nem uma palavra te dei porque ignorava isto tudo. A Maria tem a sorte de ter uma mãe como tu. É nestes casos que fico ainda com mais raiva pensando nas mães que às vezes abandonam os filhos e outros horrores piores...
    Pensa que está quase no fim e depois disso há-de (só pode) ser para melhorar...
    Muitos beijinhos cheios de força para ti...

  2. Sílvia comentou:

    12 Outubro, 2016 às 11:46

    Grande Mãe! Grande Maria! Fazia exatamente o mesmo ou parecido. Muita força e coragem. Felicidades. O meu príncipe faz 32 meses e continua a mamar e sempre mamou quando quis. Agora é quase sempre só para dormir. É crescido mas adora estar na maminha da mamã. E eu também adoro estes momentos nossos. 😉 🙂

  3. Leonor Comenda comentou:

    12 Outubro, 2016 às 13:36

    Apesar do tema ser "pesado", lembro-me apenas de dizer a esta mãe: Obrigada! Obrigada por ser tão boa mãe! E Obrigada por me ter dado forças para continuar a ir contra tudo e todos na amamentação da minha bebé com 14 meses, que todos querem tirar da mama... ;( beijinhos e toda a sorte e felicidade do Mundo para vós! Obrigada

  4. Catarina Pires comentou:

    12 Outubro, 2016 às 21:27

    Sem palavras... Grata pelas palavras e orgulhosa de mim por ao fim de 11meses ainda amamentar. Felicidades! *

  5. Sandra Talhinhas comentou:

    14 Outubro, 2016 às 14:39

    Parabéns a esta Mãe ;esta guerreira que luta diariamente pela sua cria indefesa e a consola com a sua " maminha.EU tenho um príncipe de 14 messes que está de plena saude com a Graça de Deus e que o seu consolo diário e e será a minha Maminha até. Ele crer!Força pequena Maria e mil Bjs

  6. Rute Vinagre comentou:

    28 Setembro, 2017 às 17:16

    Que a Maria cresça forte e saudavel. Bem-haja às duas. Grata pela partilha que me tocou o coração.

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