André, Débora, Matilde e Maria

Às vezes os milagres acontecem aos pares

Sempre sonhei em ser mãe mas estava longe de imaginar o que me aconteceu. Lembro-me que até aos meus 10 anos o meu grande sonho era ter um irmão. Assim que o tive foi maravilhoso, e o meu lado maternal ficou ainda mais apurado. Os anos passaram, casei e este sonho de ser mãe juntou-se ao sonho do meu marido de ser pai e assim resolvemos tentar engravidar após 4 meses de casamento. No dia 14 de Outubro de 2013 já com alguns indícios de uma possível gravidez como a ausência da menstruação, enjoos matinais e, acima de tudo, a minha intuição, resolvemos fazer o teste, e foi maravilhoso a alegria que sentimos quando vimos o positivo. Agarramo-nos, beijamo-nos, e sonhamos os dois com o nosso bebé. Após uma semana, no dia 25 de Outubro, fomos à primeira consulta. Estava tudo aparentemente bem, recebi alguns conselhos para esta fase da gravidez e fomos os dois super felizes para casa. Como ainda era bastante cedo não se conseguia ver quase nada na ecografia apenas uma bolsa com um pontinho la dentro. Mas onde todos viam um pontinho, eu via dois, apesar de ninguém ter acreditado em mim. Até que comecei com enjoos e vómitos muito intensos que todos os dias pioravam e o meu marido que é médico começou a acreditar na minha teoria de serem 2 bebés. Alguma coisa me dizia que eram dois não sei bem explicar, toda a gente que olha para a primeira ecografia apenas vê um e eu sempre vi dois. E não é que estava certa! No dia 13 de Novembro fui novamente à médica. Quando fomos fazer a ecografia vi logo os meus dois bebés, a médica muito surpreendida e o meu marido com ar de riso por eu ter sempre dito que eram dois.

Foi uma alegria que não sei explicar, talvez a noticia mais emocionante que alguma vez tinha tido. Sempre quis tanto ser mãe e ainda por cima logo de dois ao mesmo tempo. Eu e o meu marido não cabíamos em nós de contentes!

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À 17ª semana, no dia 15 de Janeiro, soube que iam ser duas meninas. Juro que pensava que o segundo era um Francisco mas o pai sempre soube que iam ser duas Marias.

O primeiro trimestre foi vivido com muitos medos e muito desconforto. Pelos vómitos e náuseas não conseguia comer praticamente nada, fiquei logo de baixa e como comecei com contrações não dolorosas cedo tinha de fazer repouso. Quando cheguei ao segundo trimestre já tinha uma barriga enorme mas já estava muito mais bem-disposta.

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A gravidez estava a ser super vigiada, consultas e ecografias semanais, estava longe de imaginar o que iria acontecer… já não cheguei ao terceiro trimestre.

Às 25 semanas de gestação, no dia 10 de Março de 2014 acordei com umas dorezitas que julgava eu serem da obstipação, vesti-me e tomei o pequeno-almoço com o meu marido. Fomos tranquilamente para o Hospital São Francisco Xavier para a consulta para realizar a ecografia. Tivemos uns 40min à espera e eu continuava com cólicas, sinceramente estava a começar a ficar preocupada. Entretanto fomos chamados e começamos a ecografia, as meninas estavam muito bem no percentil 50, fiquei super feliz. Quando foi verificar o tamanho do colo do útero, perguntou-me logo se não tinha tido contracções, e disse que estava apenas com cólicas (coisas de mãe de primeira viagem). Disse-me logo que ia ficar internada, porque o colo do útero tinha reduzido numa semana de 40mm para 10mm. Comecei a chorar, fiquei tão assustada, não queria que isto tivesse a acontecer, tinha medo pois elas só tinham 25 semanas.

Fui encaminhada para a urgência e logo de seguida para o bloco de partos, estava muito assustada. As enfermeiras do bloco de partos são 5 estrelas e umas queridas, até direito a musica tive e acabei por ficar mais calma. Iniciei a medicação para parar as contracções, o antibiótico e a primeira dose de corticoide para a maturação dos pulmões das meninas. Só queria que parassem as cólicas, quer dizer, contracções, e ficar bem rápido. Acreditava que sim, que não passava de um susto. O André, meu marido, esteve sempre comigo, também ele estava assustado mas tentava não demonstrar. Estava em jejum desde as 10h00, só por volta das 21h30 é que me deram comida, tinha tanta fome que os desejos que não tive na gravidez, estava a tê-los todos naquele dia. Ao fim do jantar, as contracções melhoraram e fui transferida para o piso 4, para uma autêntica suite. O André ficou triste porque tinha de ir dormir a casa e eu também fiquei triste de me separar dele. As meninas não paravam de mexer na barriga.

Mal dormi nessa noite, estava constantemente a acordar com umas dorezitas que eu julgava que eram contracções mas que a máquina do CTG dizia o contrário. Estava um pouco assustada com as dores mas estava bastante confortável e animada, com muita esperança de ir para casa ao final da semana. No dia 11, o André ainda teve de ir trabalhar de manha, mas veio logo ter comigo à hora de almoço. Quando chegou fiquei ainda mais tranquila, é sempre bom ter o meu maridão comigo. Passou a tarde comigo e até me trouxe pastéis de nata. A minha médica por volta das 18h foi ver-me e falei-lhe das minhas dores mas a maquina dos CTG continuava a dizer que não eram contrações.

Depois jantei e mais uma vez adorei o jantar. O serviço hoteleiro do Hospital São Francisco Xavier é cinco estrelas, assim como todos os profissionais de saúde que nos prestaram cuidados. Ao final da tarde estava tão cansada que disse ao André para ir para casa que queria dormir. E assim foi, por volta das 19h40 lá foi ele para casa e fiquei quietinha de lado a tentar dormir.

Por volta das 19h50 tive uma contração super dolorosa que me fez sentar na cama. Fiquei tão assustada! De repente, outra contracção e gritei de tanta dor, carreguei na campainha e ninguém aparecia, entretanto outra e comecei a gritar sem parar, o meu coração batia depressa e o medo de elas nascerem ali era muito. Veio então a auxiliar e pedi-lhe ajuda rápido, vieram depois duas enfermeiras a tentar acalmar-me e disseram-me para suster a respiração e eu continuava a pedir ajuda, quer dizer, implorava pois já estava a sentir a Maria a descer. O enfermeiro especialista tinha ido ao bloco e era ele que ia ver se tinha ou não indicação para ir para o bloco de partos. Parecia uma eternidade e ninguém me ouvia. Deram-me o telemóvel para ligar ao André e só chorava, pedi-lhe para vir depressa. Mal chegou o enfermeiro eu já tremia, viu que já tinha a dilatação completa e já tinha a Maria a meio do caminho. A partir daqui só o ouvia aos gritos ao telefone para terem tudo pronto no bloco. Pareceu uma eternidade desde que comecei com as contracções até ir para o bloco de partos mas foram apenas 15 min. Às 20h estava a descer para o bloco de partos. Lembro-me de gritar ainda 2 vezes durante o caminho, eram dores insuportáveis. Mal cheguei ao bloco era tanta gente que nem consegui contar as pessoas. Era muita gente, muitas vozes, lembro-me de me agarrarem nos braços e de alguém ter a mão a segurar a cabeça da Maria. A neonatologista agarrou-me e disse-me dos perigos que as meninas corriam, e apesar de estar a ouvir aquilo tudo sentia que tudo ia correr bem só queria que se despachassem pois só sentia a Maria a sair e as dores. Foi então que vi o meu anjinho, a anestesista. Nunca pensei que a anestesista fosse tão importante mas foi quem mais me acalmou, lembro-me da voz dela e da calma que me transmitia embora eu acredite que também ela estivesse assustada porque seria um parto de gémeas às 25 semanas de gestação, por cesariana, com anestesia geral, e eu tinha acabado de jantar e tinha passado o dia a beber litros de água. Sinceramente, nem pensei nos riscos que corria com a anestesia geral. Adormeci a olhar para a anestesista e a pensar nas meninas, e com uma certeza muito grande que elas iriam sobreviver. A Maria nasceu as 20h25 com 741gr e teve de ser empurrada pois já estava a meio caminho de nascer de parto normal, a Matilde nasceu as 20h28 com 684gr e foi bastante difícil de sair pois o útero contraiu depois da mana sair. Ambas foram reanimadas assim que nasceram. Acordei passado 1 ou 2 horas talvez (perdi a noção do tempo) e tinha o André a meu lado, perguntei pelas meninas e ele disse que estavam bem e eu tranquilizei. Assim que voltaram as dores fiquei mais desperta, e consegui ver as minhas filhas pelas fotografias que o André lhes tinha tirado. Que sensação maravilhosa de as ver e de saber que estavam estáveis mas mal sabia o susto que o André tinha apanhado. O André ainda nem tinha chegado a casa quando recebeu o meu telefonema, veio a toda velocidade para o Hospital. No caminho ainda ligou aos meus pais e aos pais dele. Quando chegou já estavam a nascer as meninas, não entrou no bloco mas acompanhou as meninas para a neonatologia. Assim que chegaram elas tiveram de ser entubadas e colocados os cateteres. Eram só alarmes, o André já não estava a aguentar ouvir, chorou e sentou-se no chão a pedir a Deus para as salvar. Entretanto la chegou a enfermeira e disse que estavam estáveis e que podia ir vê-las. Tirou fotografias para depois me mostrar e veio para perto de mim.

Entretanto foram buscar-me para ir para o quarto, no caminho vi os meus pais, mano, sogros e os meus Ricardos. Que bom ver os meus pais, nunca pensei que eles viessem estava mesmo emocionada e feliz de os ver ali, estava tanto a precisar do apoio deles, são tão importantes para mim.

O André acompanhou-me até ao quarto. Estava sozinha o que era bom para o André poder estar comigo. Estivemos até as 3h da manhã a conversar e depois adormeci e o André foi para casa.

No dia seguinte, acordei devagarinho e cheia de sono. Não conseguia pensar no que tinha acontecido, sentia medo, sentia uma angústia de ainda não ter visto ao vivo as minhas filhas e de não saber como elas estavam e como tinham passado a noite. Pelas 7h la veio o enfermeiro ter comigo, acalmar-me e observar-me. Estava bem, apesar do sono devido aos comprimidos (morfina e outros analgésicos) achava que estava a recuperar bem. Estava cheia de pressa para me ajudarem a fazer o primeiro levante, tomar o banho e ir ver as minhas filhas. Por volta das 9h, uma senhora simpática serviu-me o pequeno-almoço, e por volta das 9h30 já estava a ser levada para o WC pela enfermeira, foi a primeira vez que alguém me deu banho, apesar de estranho senti-me bem por estarem a cuidar tão bem de mim. Por volta das 10h o meu maridão veio buscar-me e la fomos nos, eu de cadeira de rodas, ver as nossas meninas. Apesar de eu estar no 3ºpiso e as meninas no 1º piso parecia uma longa distância.

Ia ansiosa mas muito expectante para as ver, sabia que me ia emocionar e sentia ao mesmo tempo medo de elas não estarem bem. Passamos a porta que nos dá acesso ao mundo dos pequeninos, ao mundo de luta, de milagres, de fé e ao mundo da esperança. Lavámos as mãos durante uns 5 min, vestimos um avental e desinfectámos novamente as mãos. Agora sim, estava pronta para ver as minhas filhas. O André agarrou na minha mão e apresentou-me a Matilde, que linda, que energia, esticava os seus longos braços e mãos e longas pernas, senti tanto amor, tanta esperança, tanta felicidade que nem tantos fios, tubos, seringas etc, me assustaram. Tinha tanta vontade de tocar nela de a abraçar, de lhe dar mimo mas sabia que tinha de esperar. Depois o André apresentou-me a Maria, linda e muito parecida comigo, senti o mesmo que senti quando vi a Matilde, tanto amor, tanta esperança, tanta paz. Também tinha as pernas e os braços longos como a Matilde mas era mais gordinha. Estava tão agradecida por ter duas filhas tão lindas e tão perfeitas que podia estar a olhar para elas o dia todo.

Os médicos falaram connosco e colocaram-nos ao corrente da situação clínica das duas, embora estivessem estáveis, a sua prematuridade poderia levá-las a ter complicações. Mas o nosso amor, a nossa fé e esperança era tanta que nos deu força para continuar a lidar com este pesadelo da melhor maneira. O corpo médico e de enfermagem da unidade de Neonatologia do HSFX é mesmo muito bom e bastante dinâmico. Sentia que estavam todos muito motivados para ajudar as minhas meninas e isso tranquilizou-me. Eu e o André confiamos muito em todos os profissionais, sentimo-nos tão agradecidos.

O pior do dia foi mesmo o sono, era incapacitante, as pessoas falavam comigo e eu adormecia sem dar por isso. Só pedia para ficar sem sono para poder ir depressa para junto das minhas meninas.

No dia seguinte acordei cheia de energia, comi, tomei banho, fui observada pela anestesista e enfermeira e fui a correr ver as minhas meninas. Estavam lindas a dormir, perguntei logo à enfermeira como fazia para tirar o leite pois estava cheia de medo de não conseguir amamentar as minhas princesas e a médica já tinha dado indicação para iniciarem 1ml de 3 em 3 horas. La fui eu aprender o procedimento de extracção de leite por uma bomba elétrica (que medo. Nem vou descrever a dor que senti quando iniciei a extração, mas a dor de não ter as minhas filhas nos meus braços era em maior. Fiquei um pouco triste, pois só saíram umas gotinhas apesar de estar uns 20 minutos na bomba, mas a enfermeira explicou-me que era normal nos primeiros dias apenas sair muito pouco colostro mas o importante era estimular. O André chegou à unidade e ficou todo orgulhoso de mim.

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O grande momento desse dia foi mesmo o poder tocar nas mãos das minhas filhas, tinha tanta vontade de chorar, de rir, de alegria, mas ao mesmo tempo um sentimento de angústia por não as poder abraçar.

Ao fim da tarde, o André foi registar as meninas e foi tão bom saber que elas já tinham a certidão de nascimento.

À noite tinha uma dor enorme nas maminhas pela subida do leite. A enfermeira foi uma querida e ensinou-me algumas técnicas para alívio da dor e estimulação do aleitamento. E tudo isso resultou, no fim do dia as minhas meninas já estavam a beber o meu leite, que sensação boa.

Cinco dias depois de ser internada, dia 14 de Março de 2014 tive alta. Apesar de estar contente por ir para casa, pois estava a ser bastante difícil ver a toda a hora as mães com os seus filhos nos braços e eu sem ter as minhas princesas nos meus, estava com uma dor horrível por deixar as minha filhas no hospital. Não é justo pensava eu, todas as mães devem levar os seus bebés para casa, é uma dor, uma solidão, uma angústia, uma tristeza, que só mesmo quem passa por isto é que sabe do que falo.

A partir daqui seguiram-se dias, semanas e meses de uma luta intensa, cheia de amor, esperança, fé! Foi um caminho longo, com muitos altos e baixos! Uma autêntica montanha russa, recheada de sentimentos muito intensos, e muito difíceis de explicar para quem não passou por uma situação semelhante.

Ao longo de todo este caminho, os excelentes profissionais da unidade de Neonatologia do HSFX foram impecáveis, sempre incansáveis na luta pela sobrevivência das Marias, e fundamentais em todo o apoio que recebemos! Hoje olhamos para eles e vemos bem mais que simples profissionais, vemos super heróis, vemos amigos, vemos uma família!

Após 109 dias de luta, chegou finalmente o grande dia! O dia com que sempre sonhámos, o dia que desejávamos desde que elas nasceram. Ao fim de 109 dias, chegou o dia da alta! Fomos buscar as Marias felizes, mas ansiosos, e receosos, com medo de não sermos capazes de cuidar delas da forma mais adequada em casa, medo por deixar de repente de ter todo o apoio dos médicos e enfermeiros da unidade que tínhamos tido até então. Mas a felicidade e alegria de as levar para casa era ainda maior!! E assim foi, no dia 27 de Junho, levámos finalmente as nossas Marias para casa.

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A luta não terminou aqui, os medos continuaram, os sustos também. Mas agora tínhamos já as nossas brincadeiras, os nossos mimos! Podíamos tê-las no colo o tempo que quiséssemos, podíamos dar-lhes mimo quando quiséssemos! Éramos finalmente pais a tempo inteiro. O amor, a felicidade, o brilho no olhar das Marias aumentou, continua a aumentar, a cada dia que passa.

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Passado quase um ano, olhamos para trás, e percebemos que os sustos foram diminuindo à medida que elas iam crescendo, cada vez mais fortes, saudáveis e acima de tudo, felizes, rodeadas de um grande amor, genuíno, verdadeiro!!

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Débora Barroso do Blog Nós e as Marias

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