Gilberto, Melinda e Belinda

O nosso parto em casa começou muito antes do dia em que a Mel nasceu. Desde sempre desejei ser mãe e ter um parto o mais natural possível.

gil

Mal eu sabia que se podia parir em casa e de como isso seria empoderador para mim, já o meu corpo e a minha intuição assim o pediam. Assustavam-me as luzes do hospital, a opinião deste e daquela, as sugestões e as intervenções num corpo que sabe muito bem o que está a fazer.

Queria que o momento fosse mágico. Quando conheci a Carla, que depois veio a ser a nossa doula, os meus olhos brilharam, senti que havia uma ligação especial entre nós que havido começado ali numa simples reunião de trabalho. Passado alguns anos, fiquei grávida e falei com o Gil e disse-lhe que existiam as doulas e que elas nos iriam tirar todas as dúvidas e mais do que os médicos, elas falariam a nossa linguagem. Falei com a Carla e ela prontificou-se a ser a nossa doula, informou-nos e nunca me aconselhou, apenas me mostrava a realidade nua e crua da maioria dos partos em Portugal e dizia-me que só eu poderia escolher mostrando também uma realidade bem mais feliz. A primeira vez que lhe disse que queria parir em casa ela não deu grande importância, continuou a informar-me e a deixar que eu decidisse verdadeiramente o que o meu corpo e alma pediam.

No início da gravidez comecei por ir a um ginecologista a quem eu perguntei se acreditava na influência da lua no parto ao que ele me respondeu que isso era mito, depois dessa consulta percebemos que não estávamos em sintonia com esse médico e nunca mais o visitei. Para mim a natureza não está separada de mim e eu não estou separada dela, somos todos um só e eu acredito verdadeiramente que a lua está em conexão comigo, por isso tinha de procurar pessoas que também acreditassem nisso.

Seguido a isto fiz ainda uma ecografia a mandado deste Senhor doutor a um médico seu amigo em Almada, o qual me ia dando uns “murros” na barriga para o bebe se mexer e ainda paguei cerca de 100 por isto tudo. Desisti, nada disto fazia sentido para mim, para nós.

A gravidez passou sem problemas, uma infeção urinária, uma candidíase e pronto, assunto resolvido com recurso a produtos naturais e a algumas mezinhas caseiras. Pratiquei algum yoga matinal depois dos 4 meses e tive muita atenção à alimentação, segui muitos dos passos do método para o parto suave da Gwori Motha nos últimos meses e acho que isso também me deu conhecimento para avançar para esta forma de nascer/renascer.

Entretanto decidi ser acompanhada pelo Centro de Saúde em Grândola, na altura estavam cá uns médicos estrangeiros e eu, preocupada em encontrar um médico que ouvisse os meus desejos, resolvi escolher um médico cubano, que quando lhe disse que ia ter um parto em casa nem levantou os olhos para me perguntar porquê, apenas me disse: “com certeza, se é essa a sua vontade”, tenho a certeza que se fosse um médico português me tinha colocado muitas questões e me teria feito desaparecer dali em segundos. Mas não, este médico foi discreto, confiou em mim e deixou-me escolher. As diferenças culturais são enormes. Na nossa cultura não é a mãe que dá à luz, é o médico e os enfermeiros que fazem o parto e que são donos do corpo da mulher.

A última ecografia que fiz foi já no Hospital de Santiago do Cacém e correu muito bem, a médica espanhola, a meu pedido, não me disse o sexo do bebé e saímos de lá contentes porque, mais uma vez, estava a correr tudo bem como nós já sabíamos.

A minha parteira foi escolhida por nós, não pelos partos que já tinha feito, mas pelo profissionalismo e técnica que nos demonstrou ter. Desde o início eu sabia que era eu quem ia fazer o parto e não ela, por isso a responsabilidade seria minha, ela seria apenas um apoio para o caso de alguma coisa correr menos bem.

A passos largos para a recta final, os meus dias eram passados de forma tranquila, escolhi não trabalhar, sou grata por isso ter sido possível, o meu trabalho numa refinaria na altura não seria compatível com o estado de grávida e também não queria usufruir de uma baixa médica só porque sim, quando estava tudo muito bem. Arrisquei é verdade, mas a vida encarregou-se de me conduzir no caminho certo, o caminho que escolhi de verdade para comigo e para com os outros. A hora estava a chegar e eu continuava tranquila, li poucos mas bons livros, recomendados pela minha doula, e riscava todos os artigos que via passarem-me em frente aos olhos de cesarianas, epidurais e outros que tais que não quero lembrar o nome. Também me afastei das pessoas que contavam histórias tristes com intenção de me fazer mudar de ideias, fiquei mais uma vez a ouvir-me e a confiar apenas naquele com quem escolhi fazer este percurso de mãe, o pai da Melinda, o Gil, o meu companheiro. Nós tínhamos a força do mundo inteiro para querer ter aquele bebé em casa. E assim foi. No dia 26 de Fevereiro, acordámos cedo, eu com algumas contrações e ele cheio de energia para fazer uma caminhada pela serra de Grândola com os alunos do yoga. Fiquei em casa, as contrações desapareceram, almoçámos juntos e à tarde ele seguia para trabalhar no SPA de Tróia. A meio da tarde apareceu o meu irmão em minha casa e eu não o querendo assustar, disse-lhe apenas que tinha tido umas contrações de manhã. Sai com ele e com alguns amigos para uma esplanada, onde de vez enquando vinham algumas contrações, eu disfarçava e eles continuavam a beber a sua cerveja calmamente. Era sábado e eles tinham uma festa, eu claro, não ia. Fui para casa por volta das 18h e comecei a sentir mais contrações. Deitei-me na minha cama e liguei ao Gil, eram já 19h e ele vinha a caminho, as contrações já começavam a ganhar algum ritmo e mandei-lhe uma sms a apressá-lo. Ele chegou e tratou de tudo sozinho. Desde encher a piscina, registar todas as contrações, dar-me atenção. Entretanto chamou a doula e a parteira. A doula chegou e perguntou-me se eu queria ir tomar um banho, ao que eu cedi. Até então eu tinha permanecido no meu ninho, a minha cama, o lugar mais seguro do mundo. Depois do banho que me relaxou imenso comecei na fase expulsiva e com aquela vontade de ir à casa de banho mas que é na verdade o bebé a querer sair. Segui para dentro da piscina e pedi algo para comer ao Gil, ele trouxe-me um biscoito e nesse instante larguei o biscoito e saiu a cabeça do bebé. A doula e a parteira que assistiram ao meu parto deixaram-nos ser protagonistas, a Mel e eu numa esfera de amor e alegria como nunca sentira antes.

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No momento nem perguntei o sexo do bebé, tal era o estado de tamanha alegria, nem queremos saber de mais nada, é primitivo tudo o que acontece ali, os nomes, o sexo deixámos para depois. Aquele momento em que olhei nos olhos dela a minha vida mudou, agora tudo fazia mais sentido. O nosso corpo é poderoso, nós somos poderosas e eu senti todo o amor que existe no mundo a inundar-me e agora sou uma pessoa melhor por ser mãe.

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O meu desejo mais profundo é que cada vez mais mulheres conheçam a beleza de parir assim com toda a força e o amor que existe dentro delas. Que assim seja.

Texto e fotografias por Belinda Sobral.


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