Maria, Pedro, Joana, Inês e Rosa

Duas estrelas, dois arco-íris. Depois da experiência fantástica que tivemos da nossa primeira gravidez e parto, o meu marido, nem passado um mês perguntou-me quando poderíamos repetir. Não tinha sido fácil mas foi tudo muito natural, muito intuitivo, muito fisiológico. Tínhamos-nos informado bem, tínhamos tido uma doula, um médico, uma parteira e muitas conselheiras de aleitamento. Houve stresses no caminho da parentalidade, mas fomos superando tudo. Bem se diz que só não há remédio para uma coisa nesta vida. E na altura, mal sabia eu que ia aprender essa lição não uma, mas duas vezes.

Positivo. Com a nossa primogénita com 30 meses feitos, senti-me grávida de novo. Fiz o teste no dia de anos do meu marido e embrulhei-o para lho dar de presente, à frente de toda a família. Foi um momento muito emocional, partilhado, e surpreendendo todos. Nada fazia adivinhar problemas, tudo corria bem. Até eu ter apanhado uma gripe da qual não me conseguia livrar. Várias idas à urgência, vários sustos até à eco das 12 semanas, em que o som que eu mais queria ouvir deu lugar ao silêncio. Foi um choque muito grande, e só essa história encheria várias páginas.

Quando caímos, temos que nos levantar e pela minha filha, foi isso que fizemos. Passado 6 meses voltei a sentir-me grávida. Ainda meio atordoada, a fazer exames para tentar perceber o que tinha acontecido mas a rezar para que tivesse sido um azar único que tantas vezes (mais do que imaginamos) acontece. Foi uma gravidez sobressaltada em que ninguém dava certezas de nada. E apesar de estar a correr tudo bem, um pequeno sangramento novamente às 12 semanas levou-me à urgência, e a confirmar que o sonho estava novamente desfeito. Tirámos um ano para pensar. Para reagrupar, para perceber o que queríamos.

A minha “estrada de tijolos amarelos”: o teste de gravidez positivo, as seringas, ecografias e a impressão das placentas.

A minha “estrada de tijolos amarelos”: o teste de gravidez positivo, as seringas, ecografias e a impressão das placentas.

Anti-beta-2-glicoproteína1. Aprendi este nome de trás para a frente. Afinal era ele o culpado de o meu corpo rejeitar os meus bebés. Porque tinha corrido bem e agora corria mal? Não sei. Mas corria. E agora era tentar de novo ad hoc ou fazer algo. Injecções? Comprimidos? Era tudo o que a minha primeira gravidez não tinha sido ou tido. Tudo o que eu sempre tinha feito para evitar. Tudo o que envolveria comprometer a liberdade de um parto não-interventivo que eu sempre tinha sonhado em repetir. Mas a vontade de sermos pais foi mais forte e tive que aprender a aceitar o que me custava e a lutar pelo que sabia, ainda assim, ser possível. E foi assim, com a primogénita a fazer os 5 anos, que dei por mim novamente grávida. Sabia que ia ser complicado, sabia que ia ter que tomar decisões mas foi às 6 semanas que tive um ataque de riso no gabinete da ecografista: não era uma bolsa, eram duas. Ambas cheias, ambas com o “pisca-pisca” e a música maravilhosa de dois galopes em sintonia. Aí começaram as preocupações, a dobrar, pois tudo era diferente: foi uma gravidez muito intensa, muito vivida mas muito sofrida também pois lutei para encontrar um cenário que me respeitasse e às bebés na hora do parto. Por ser uma gravidez medicada, por ser uma gravidez após não uma, mas duas perdas, por ser uma gravidez gemelar basicamente era automaticamente colocada em alto risco por todos que me viam.

32 semanas: doula, mana e mãe em plena barriga de gesso (fotógrafo: pai)

32 semanas: doula, mana e mãe em plena barriga de gesso (fotógrafo: pai)

Mal-me-quer, bem-me-quer… Até ao final acreditei no sonho de um parto vaginal, respeitado e com a minha equipa (marido e doula). Procurei os locais mais adequados e fiz vários planos consoante o que sucedesse. O que sucedeu foi que a primeira gémea estava sentada e apesar dos exercícios e terapias, depois das 33 semanas não virou mais. A 2ª gémea mexia-se mais mas estava transversa. Desde as 32 semanas que eu estava de repouso moderado porque o meu colo tinha encurtado: estava com 18 mm de espessura e a começar a afunilar (algo que eu descobri depois que é bem normal em gravidezes gemelares devido ao peso dos bebés). Quiseram-me internar e dar as injecções para o amadurecimento dos pulmões das bebés mas como não havia outros sinais de trabalho de parto eminente, eu recusei. Depois das 35 semanas saí do repouso pois já era seguro nascerem sem as injecções e elas já tinham mais de 2,5 kg cada uma.

32 semanas: sessão de belly painting com o pai e a mana

32 semanas: sessão de belly painting com o pai e a mana

A única condição imposta por todos os que me assistissem para eu poder tentar o parto vaginal era que a bebé 1 estivesse cefálica. Visto que ninguém me apoiava num parto pélvico da 1ª gémea, marcaram-me a cesariana na maternidade onde estava a ser seguida, para o final das 37 semanas, pois a indicação médica é que o risco de morte fetal aumenta depois das 38 semanas em gémeos dicoriónicos e diamnióticos. Eu ainda estava confiante que elas ainda poderiam virar ou pelo menos que eu ainda poderia entrar em trabalho de parto espontaneamente e depois seguir para cesariana se fosse caso disso. Afinal, desde as 32 semanas que eu estava em risco de parto prematuro, mas até as contrações de Braxton-Hicks frequentes tinham diminuído depois das 36 semanas. Como as bebés estavam bem, os líquidos amnióticos estavam bem, e porque sendo no público o meu marido ou a minha doula seriam impedidos de estar comigo no bloco de partos, decidimos mudar de médico e esperar o parto espontâneo… Porém no final desse dia, os meus pés tinham inchado, o meu marido estava nervoso e nós sentíamo-nos pressionados pela situação… Como eu estava a tomar injecções diárias de heparina, havia a pressão adicional de não poder levar uma epidural até 12h depois da toma da injecção. Se a 1ª bebé estivesse cefálica, não estaria minimamente preocupada pois eu já tinha passado por um parto sem anestesias. Mas visto que a probabilidade de eu ser submetida a uma cesarina era bastante elevada (havia só 3% de probabilidade de a bebé ainda virar), se eu entrasse em trabalho de parto espontâneo durante essas 12h, na impossibilidade de levar uma epidural, teria que ser submetida a uma anestesia geral, com tudo o que isso implicava para mim e para as bebés.

Era para ontem, mas afinal é já para amanhã. Então passei essa semana a tomar a injecção às 6 da manhã, rezando para que nada acontecesse até às 18h, e depois dessa hora, andando e agachando-me e comendo picante ou bebendo chá de canela e folhas de framboeseira para tentar acelerar as coisas (não era de todo um cenário relaxante). O obstetra privado que escolhemos apoiava o início de trabalho de parto espontâneo. Ele sentia-se confortável em esperar até às 39 semanas mas não muito mais tempo. Também me aconselhou a não interromper a heparina nessa semana para aguardar pelo trabalho de parto (algo que poderia evitar a questão da epidural). Mas infelizmente ele ia estar fora da cidade na semana seguinte e começou a pressionar para marcarmos o dia. Que quanto mais esperássemos, maior seria a probabilidade de eu precisar de uma anestesia geral (se dentro daquelas horas depois da injecção) ou até de uma cesariana de emergência, em que o nosso plano de parto poderia não ser todo respeitado.

Às 38 semanas visitámos o hospital e decidimos marcar para daí a 4 dias mas mais uma vez, o obstetra disse que esse dia não lhe dava jeito e perguntou se não poderia ser no dia seguinte… Eu não estava preparada para aquilo e fiquei em choque por uns momentos mas o meu marido estava tão ansioso com a situação que aceitou de imediato dizendo que por uns dias não faria diferença, que já tínhamos aguentado até às 38 semanas e eu não tive mais forças para os contrariar.

37 semanas: último fim de semana?

37 semanas: último fim de semana?

Então combinámos de nos encontrarmos no dia seguinte sendo que eu não tomaria mais heparina para poder levar a epidural. Nessa noite pusemos tudo a jeito, visualizei o processo na minha cabeça para tranquilizar os bebés que tudo estava bem, avisámos os avós e arranjámos quem ficasse com a nossa mais velha enquanto estivéssemos no hospital. Fomos passar a tarde a uma piscina e aproveitar os últimos momentos de barriga e terminámos o dia com uma bonita cerimónia de despedida facilitada pela nossa Doula, Sara Vale, em que nos despedimos desta gravidez e acolhemos os novos bebés. Bebemos o condimentado chá da Naoli Vinaver (nham!!!) e durante a madrugada cheguei mesmo a ter algumas contrações fortes.

38 semanas: véspera de cesariana. Últimos shimmis, cerimónia de despedida e boas-vindas com a doula

38 semanas: véspera de cesariana. Últimos shimmis, cerimónia de despedida e boas-vindas com a doula

Dia P. De manhã fomos para o hospital e eu estava algo nervosa porque não tinha a certeza de estar a fazer o correcto. A nossa Doula já lá estava e foi quem contribuiu para me manter centrada e calma. Cheguei a brincar diversas vezes com o facto de me querer vir embora (especialmente quando me disseram que não iam ter quartos individuais, porque era uma das minhas “condições absolutas” para aceitar a marcação, visto que só assim o meu marido poderia pernoitar connosco. Mais tarde eu fui mudada para um quarto individual e ele pôde ficar as 2 noites que estivemos internadas).Demorámos quase 2 horas a conversar com a equipa hospitalar que estaria envolvida no nascimento e todos foram bastante receptivos, embora cépticos sobre qual a razão de tantas “condições”. Mas como o meu obstetra já tinha acedido a quase tudo previamente, eles aceitaram tudo de bom grado também. Eu fui então levada para a sala do bloco de partos por volta das 11h30 para ser preparada para a epidural. A anestesista foi muito simpática e pôs-me bem à-vontade. No início ela estava um pouco incomodada com os meus pedidos porque sentia que eu estava a colocar em causa os seus conhecimentos. Mas assim que ela percebeu que eu estava a pedir e não a exigir, ela mudou completamente de atitude. Eu pude ficar com ambos os braços livres (sem ser amarrados) e a epidural pegou logo. O meu marido entrou então na sala e a nossa doula ficou na sala de observação dos recém-nascidos mesmo ali ao lado, mas viu todo o procedimento através do vidro da porta (e eu a ela). Penso que esta foi a primeira vez naquele hospital que uma doula, para além do pai, pôde estar presente numa cirurgia de cesariana. A anestesista e o obstetra foram-me explicando os procedimentos (tal como eu tinha pedido) e uma vez extraída a bebé A, o médico disse que era uma menina (nós até aí não sabíamos o sexo dos bebés), baixaram o pano para que eu a pudesse ver e puseram-na perto da minha cara. Levaram-na depois para a sala de observação e o meu marido foi atrás. Ele pôde fazer o pele-com-pele com ela depois das primeiras observações (Apgar 9-10-10) e as únicas intervenções foram a injeção da vitamina K (que eu tinha concordado dar-lhes por causa do risco de hemorragias internas pela exposição continuada a anticoagulantes durante a gravidez) e a aspiração nasal. Eu tinha pedido para esta última só ser efetuada se necessária: ela acabou por ser feita pois ambas as bebés estavam a fazer bolhinhas com a boca e recearam que elas tivessem inalado líquido amniótico e estivessem aflitas. Entretanto, a 2ª gémea foi retirada e foi-me mostrada e levada para a sala de observação para que o pai pudesse fazer o pele-com-pele (Apgar 8-10-10). A única coisa no procedimento que não foi como eu tinha pedido foi o clampeamento do cordão: na confusão, o pai acabou por se esquecer de pedir para ser ele a cortar o cordão, e na conversa que tivemos antes da cirurgia o médico confirmou-me que não poderia aguardar o corte pois teria que retirar a 2ª gémea. Durante os 4 primeiros meses, a nossa primeira gémea teve a tez mais branca que a 2ª, mais rosadinha, possivelmente devido a esse factor…

A doula. Fundamental, seja qual for o parto.

A doula. Fundamental, seja qual for o parto.

Pele-com-pele com o pai. Desta vez, a oxitocina foi dele.

Pele-com-pele com o pai. Desta vez, a oxitocina foi dele.

Depois de elas terem sido secas (o vérnix foi mantido, como eu tinha pedido) e vestidas, trouxeram-mas para o bloco de partos onde eu ainda estava a ser cosida, e puseram-nas sobre o meu peito, onde eu as pude cheirar e beijar e tivemos tempo para uma pequena sessão de fotografias/filme com o meu marido, cortesia da anestesista que nos filmou.

No bloco de partos, pais e gémeas.

No bloco de partos, pais e gémeas.

 

Também a meu pedido, as placentas foram-me mostradas (estavam fundidas e foi talvez por isso que a 1ª bebé não conseguiu dar a volta) e guardadas a meu pedido para eu as poder levar para casa.

Placentas fundidas: “making of” da impressão

Placentas fundidas: “making of” da impressão

A cirurgia foi um sucesso, e eu e as bebés estávamos tão bem que nos levaram de imediato para o quarto. A primeira coisa que fizemos foi despi-las e colocá-las diretamente no meu peito. Apesar de terem estado as primeiras horas meio dorminhocas, pegaram muito bem na mama. A mana foi trazida umas horas depois para conhecer as bebés e pôde ficar até à noite.

No quarto, já no pele-com-pele com a mãe

No quarto, já no pele-com-pele com a mãe

Tudo somado, sinto que foi uma experiência calma e respeitada, em que todos tentaram cumprir os nossos desejos. É pena que tenha que ter recorrido a um hospital privado para o conseguir. Se tivesse sido num hospital público ou numa cesariana de emergência, não sei se conseguiria ter tido a mesma experiência.

Durante a nossa estadia de 2 dias, o pai pôde ficar sempre connosco e os nossos desejos foram respeitados. Tivemos todas alta ao 3º dia.

Primeiro colinho da mana

Primeiro colinho da mana

Agradeço novamente ao Universo, que me permitiu ser mãe mais uma vez.

Às minhas meninas arco-íris, por me terem mostrado que nunca há só um caminho e por vezes temos que abrir mão do nosso escolhido.

À minha filha, por nunca ter desistido de deixar de ser filha única e ter sido o meu porto de abrigo durante as minhas perdas e a minha força motriz em todos os momentos.

Ao meu marido, que é um pai-galinha incansável e que me apoiou durante toda a gravidez.

Às minhas doulas desta gravidez, Sara Vale e Cátia Maciel, por me ouvirem e acarinharem, e desembrulharem os nós na minha cabeça e me ajudarem a procurar as respostas às minhas questões.

À equipa e ao obstetra que me operou. Apesar de não partilhar das nossas opiniões, soube distanciar-se o suficiente as respeitar de forma a que o parto fosse nosso. São precisos mais profissionais assim em Portugal, actualizados e abertos a servir as mulheres e os seus bebés.

Às minhas ancestrais, em especial à Avó Rosa, que sempre acreditou que um dia eu voltaria a estar “acompanhada”, e que mesmo depois de partir lá deitou uns “pozinhos” para nos ajudar. A todos os que se cruzaram connosco e contribuíram para o sucesso desta história, nem que fosse com um simples sorriso. Texto e fotografias de Maria Pereira.


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