Mariana, Fábio, Sofia e Artur

Tudo começou com o parto da tua irmã, e no quão traumático foi para mim apesar da imensa felicidade que me trouxe o seu nascimento. Esses sentimento ficou bem guardado e refundido até que a nossa querida amiga Patrícia os desenterrou, ao sugerir que fizesse o relato do parto da Sofia. E aí começou todo um caminho…

Não foste planeado, e confesso que quando descobri que vinhas a caminho pensei que não podias ter escolhido pior altura, mas Deus sabe o que faz. Chorei baba e ranho por muitos motivos, um deles foi pensar no dia em que nascerias, e em como eu não queria passar por isso. Pusemos então a hipótese de nasceres em casa, longe de todas aquelas batas brancas que tanto mal me fizeram a mim e à tua irmã.

sofia

Resumindo um pouco, escolhemos então o parteiro, o enfermeiro António, e nem pus em causa que a Patrícia ia ser a nossa doula, aliás já o era embora não oficialmente. Começámos a trabalhar os vários medos que me assombravam, medo de rasgar, de ter que ir para o hospital por um motivo qualquer, de te acontecer qualquer coisa, de não ser capaz de cuidar de ti…

Após uma gravidez atribulada, cheia de contrariedade uterina, eu já só pensava que queria deixar de ter dores, assim foi com enorme felicidade que recebi as contrações naquele dia 7, e mais radiante fiquei quando o intervalo entre elas diminuiu ao ponto de estarem de 2 em 2 minutos. Não me sentia no entanto em parto, e por isso foi mais por insistência do teu pai que pedi à Patrícia que passasse por cá à tarde, e que mais tarde liguei ao parteiro que, tendo em conta o tempo de intervalo entre as contrações, se pôs a caminho de nossa casa.

Chegou deviam ser umas 22h (não tenho bem noção), já eu tinha posto em prática muito do que tinha visto para alívio da dor, apoiei-me na bola, levei massagem, tomei banho, e bebi um belo chá de naoli. Ao chegar perguntou-me se me podia observar para saber em que ponto estávamos, e aí eu desatei a chorar. Não queria que me observasse, os fantasmas vieram todos ao de cima e eu não era capaz de lhe dizer que não queria que o fizesse. Ainda estive assim calada a chorar um bom bocado, até que lá disse baixinho, e essa afirmação foi recebida com um grande sorriso que me deixou aliviada.

No entanto, para minha grande desilusão às duas da manhã as contrações começaram a diminuir de intensidade, de tal modo que acabei por adormecer. Era um falso trabalho de parto… Quase chorei de vergonha quando ao acordar dei de caras com o António e lhe tive de dizer que as contrações tinham passado. E era este um dos meus receios, durante toda a gravidez, e a bem dizer toda a minha vida. Não gosto de incomodar ninguém para pedir ajuda.

Os dias seguintes passaram-se sempre com contrações, que foram ao longo dos dias aumentando de intensidade e eram mais regulares à noite. Curioso que no dia 8, na noite do falso trabalho de parto, a minha irmã mais nova fez 12 anos, e pedia por tudo que o sobrinho não nascesse nesse dia. No dia seguinte, sábado, o meu marido iria estar ausente o dia todo, no domingo, tinha um almoço com o meu pai e avós a quem não tinha contado nem queria contar que o parto iria ser em casa, na segunda e terça-feira fizeram anos mais 2 familiares…

Por fim, precisamente na terça-feira de carnaval, dia 12, falei meio na brincadeira contigo explicando que a baixa da mãe acabava no dia 14 assim como as férias do pai e que ele depois tinha que ir trabalhar e não podia ajudar a mãe em casa. Nesse dia fizemos também compras e o teu pai esteve a arranjar várias coisas em casa que eu já lhe andava a pedir à imenso tempo.

Nessa noite senti-me tranquila. Ao contrário das noites anteriores não tinha nenhuma contração ou dor de qualquer género, por isso aproveitei e às 22h estava a dormir. Acordei às 2h da manhã com cólicas fortes. “Maldita feijoada” pensei eu. Levantei-me fui à casa de banho, montes de gases (eheh) e voltei para a cama. Passado mais um pouco nova cólica, nova ida à casa de banho, lá fiz um bocado de diarreia, “shfhsgfh de feijoada” pensava eu outra vez. Não conseguia dormir. Estava a ser impossível ficar deitada então sentei-me na cama a tentar passar o tempo à espera que as ditas cólicas passassem. Joguei telemóvel e até fui ao facebook (shame on me). Como as ditas cólicas não passavam comecei a estranhar para mim aquilo não eram contrações, pois eram no fundo da barriga e até agora todas as contrações que tinha tido apanhavam a barriga por completo. Resolvi tomar atenção ao relógio. Afinal talvez fossem contrações, vinham de 5 em 5 minutos… com isto eram 4h da manhã. O teu pai estava a dormir na sala e tentei demovê-lo de lá para poder entreter-me a ver televisão à espera que as contrações parassem. Para mim isto não era mais que um novo falso trabalho de parto embora deva dizer que já estava a ficar sem posição para estar.

Depois de vários impropérios lançados a dormir lá fiquei com a sala só para mim. Eram 5h da manhã e liguei a televisão e tentei ver qualquer coisa que sinceramente não me lembro o que era. Comecei a convence-me que estava a entrar em trabalho de parto mas achei que não ia ligar a ninguém tendo em conta as horas que eram, era preferível esperar pelas 7h. Não queria fazer barulho e arriscar-me a acordar a Sofia por isso comecei a andar às voltas pela sala. As contrações vinham com 2/3 minutos de intervalo e eu já respirava bem fundo nessa altura. Deixava de ser possível ignorar o trabalho de parto que se estava a instalar. Eram 6h15 quando mandei mensagem à Patrícia a pedir que me ligasse quando acordasse que o parto ia ser naquele dia. Quando ela me respondeu a perguntar se precisava já dela eu disse, muito calmamente que não valia a pena, o teu pai, a Sofia e a avó (que havia de vir buscar a Sofia) ainda estavam a dormir e foi isso que respondi. Mais uma contração, instintivamente pus-me de cócoras e ‘poc’ as águas rebentaram e eu corri para fora do tapete para não o molhar. Mandei nova mensagem à Patrícia a avisar o que se tinha passado e logo a seguir nova contração. Ufa que esta foi forte, fiquei a ver estrelinhas. Quando a nossa doula me voltou a perguntar se eu queria que ela viesse já só consegui dizer “por favor”. Eram apenas 6h18….

Corri para o quarto e abanei o teu pai e disse-lhe que as águas tinham rebentado. Recebi um resmungo de volta. Troquei de roupa pus um penso e voltei a acordá-lo dizendo-lhe que tinha ficado toda molhada. Recebo um “então troca-te e vem dormir outra vez”. O QUÊ!!!!! Quase dei um berro “não estás a perceber é hoje, agora”. Nova contração e pus-me de joelhos ao pé da cama com a cabeça na almofada. Liguei à minha mãe dando conta da situação e não consegui terminar o telefonema, nova contração e era impossível conter a vontade de gemer. Vi uma nova mensagem da Patrícia a avisar que não tinha carro mas já não fui capaz de responder. Acho que ela se apercebeu pelo meu silêncio que as coisas tinham aquecido. O teu pai levantou-se entretanto e ligou ao António, eu já não era capaz.

A partir daqui deixei de ter noção das horas. Lembro-me que me era difícil sair da posição em que estava. A cada contração eu abria bem a boca e vocalizava “hhhaaaaa”. Sabia tão bem. Quanto mais esticava a boca ao ponto de arder de lado melhor me sabia. A minha mãe chegou entretanto a Sofia acordou, e ela disse qualquer coisa como “gostava de ficar contigo mas é melhor leva a Sofia”. Ficou preocupada pois achou que as coisas já estavam bem avançadas e só agora eu tinha chamado o parteiro.

As dores nos rins eram terríveis. O teu pai fazia-me pressão na bacia e esfregava-me essa zona das costas e que bem que sabia. A Patrícia chegou, senta-se atrás de mim e imediatamente eu ponho-lhe as mãos nas minhas costas, as mãos dela estavam geladas, que alívio. A necessidade de frio foi enorme. Comecei a ficar com os pés dormentes da posição e reclinei-me encostando-me para trás. As contrações vinham e eu fazia força com os pés na cama. Por trás de mim a Patrícia apertava-me contra ela. A sensação de segurança que isso me dava era indescritível. Começava a sentir que estava a perder o controle. Com as contrações eu como que rugia, os meus braços levantavam, esticavam e eu retorcia-me. Senti os primeiros puxos e assustei-me. Ao ouvido a voz sorridente da nossa doula dizia-me “linda, estás a portar-te tão bem”. “Ai estou?! Então isto é mesmo assim” pensei eu, e sorri de volta.

Notei pela primeira vez a presença do António, que me perguntava se aquilo já eram puxos com um ar alegre. Eu disse que não sabia bem, talvez. Lembro-me vagamente que antes disso ele já tinha ido ouvir o teu coração. Senti-me incomodada na zona do coxis, não era mais capaz de estar encostada para trás, mudei de posição com uma perna flectida e a outra de joelhos. As dores nas costas eram incapacitantes e não me conseguia pôr noutra posição embora sentisse que esta não era a mais favorável. O António pediu-me que adotasse uma posição que me permitisse ficar um pouco mais longe do chão (acho que naquela posição se nascesses batias logo com a cabeça). Sugeriu-me o banco de parto. Eu fiz birra que não me queria mexer dali mas de um modo ou outro alguém me pôs em cima do banco. Que alívio. Era mesmo aquilo que eu precisava.

Comecei então a sentir-te empurrado e ao mesmo tempo uma sensação de queimar. Fiquei em pânico. De repente o medo de rasgar tomou conta de mim. A cada contração eu chorava pois era difícil controlar a vontade de fazer força e eu não a queria fazer. O António disse que a tua cabeça estava logo ali, mas não sei porquê eu não a consegui sentir e fiquei ainda com mais medo. Até que ela me disse qualquer coisa. Não me lembro o quê, apenas que isso me deu o bocado de confiança que eu precisava para soltar um grito de guerra senti imediatamente um ‘poc’ da tua cabeça a sair, senti o teu corpinho a rodar dentro de mim e a escorregar por ali a baixo. Um breve pensamento de “então não era suposto isto demorar algumas contrações” passou pela minha cabeça ao mesmo tempo que, incrédula te pegava ao colo. Não consegui parar de perguntar a todos, ao teu pai, à doula e ao parteiro se já estava. Acho que fiz figura de parva aqui algures…

Eu tinha conseguido. Tu estavas cá fora e com aquele grito eu soltei bem mais que o medo de rasgar. Soltei-ME.

Vieste logo à mama mas não estavas para aí virado, ficámos só no miminho. Eu já estava completamente lúcida. Eram 10h05 quando nasceste e já vinhas a chorar. Algum tempo depois quando o cordão parou de pulsar o teu pai cortou-o. Mais uns minutos e senti umas contrações, uma forcinha e a placenta nasceu também. Lembrei-me então de perguntar “e o períneo?”. Recebo uma cara torcida de volta de “isto não ficou lá muito bem”. Vamos lá aos pontos então, 2 lacerações, uma lateral e outra para baixo, ainda jeitosas vá. Tu resolveste que era mais giro sair ao contrário do que de costas para a mãe…

Depois foram uns intensos momentos de mimice aguda, com direito a pequeno almoço (maminha para ti), vestimo-nos, tirámos fotos e avisámos os avós. Eram 13h e eu já me conseguia sentar, ou seja aquelas lacerações feínhas não eram NADA comparadas com a episiotomia anterior em que só 3 dias depois me sentei mais ou menos. Eu estava deliciada, delirante, feliz. Foi de facto um dia mágico e o teu pai não saiu ao pé de mim um momento!!

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Texto e fotografias por Mariana Serra Fragoso.


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