Robin, Kaité, Félix, Artur e Cloé

Na noite de 1 para 2 de Outubro de 2012, enquanto pensava que a lua cheia de 30 de Setembro ainda não tinha levado a melhor, fui deitar-me por volta da meia-noite e não consegui adormecer...

BeijoBarriga

Estava grávida de oito meses e meio, 38 semanas e meia, o parto estava previsto, segundo o médico do centro de saúde para dia 10 de Outubro, de acordo com a data da última menstruação, para dia 13-14, o que daria 20-21 se fosse acompanhada em França onde a data prevista para o parto é calculada para as 41 semanas (em vez de 40 em Portugal...). Nesse dia, 1 de Outubro, tivemos o nosso último encontro/reunião em casa com a equipa de profissionais de saúde que nos assistiriam durante o nascimento em casa do nosso bebé. A Dona Glória, a parteira especializada em partos em casa, a Celeste, a Marie e a Sofia, as três enfermeiras obstétricas de maternidade hospitalar (a Marie parteira francesa que trabalha como enfermeira obstétrica). Este último encontro era muito importante pois a Celeste iria trazer o material necessário para o parto (garrafa de oxigénio, material dos primeiros cuidados...). E a partir dessa data, eu sabia que ela estaria de férias, logo disponível noite e dia durante uma semana.

Escolhemos para esta gravidez e parto sermos acompanhados por uma doula, uma parteira e três enfermeiras para ter a certeza que pelo menos a doula e uma das profissionais de saúde estariam disponíveis para estar presentes no momento do parto. De facto, para os meus dois primeiros filhos, pari de noite e muito rapidamente (em 5h para o Robin e em 2h para o Félix) por isso era essencial ter uma equipa reactiva e disponível a qualquer hora/dia. Como as três enfermeiras trabalhavam a tempo inteiro e por turnos em maternidade, era impossível saber qual delas estaria disponível no dia D. E como tinham pouca ou nenhuma experiência de partos em casa, pareceu-nos mais seguro recorrer também a uma profissional muito experiente, Dona Glória.

Já há quase 3 anos que me informava acerca de tudo o que diz respeito ao parto humanizado, ao parto fisiológico, nomeadamente em casa. O Robin nasceu na maternidade em França há 14 anos com 38 semanas e meia, 2,920kg às 2h50 da noite de 12 de Agosto de 1998. E mesmo que guarde boas recordações do nascimento, como por exemplo o grande momento de pele contra pele na sala de parto, não pude ficar indiferente a determinados procedimentos. Os profissionais não faziam caso do que lhes dizia, do que ia sentindo, do desenvolvimento do trabalho de parto, acabaram por me convencer a aceitar a epidural, embora o nascimento estivesse próximo, carregaram na minha barriga para fazer o bebé sair, depois aquando da minha subida para o quarto, separaram-me do meu bebé durante várias horas, deram-lhe banho... O Félix nasceu há 4 anos e meio, às 40 semanas, com 3,695kg e 52 cm às 5h40 na manhã de 7 de Março de 2008 na maternidade em Portugal. Ainda sofro hoje no meu corpo de mulher e coração de mãe do parto ao qual nos submeteram. Nenhuma escuta, nenhum reconforto, nenhuma confiança, nenhum apoio, era apenas um corpo, obrigada a calar-me e a obedecer aos protocolos e procedimentos sem um olhar nem sentimento humano. Obrigada a sentar-me numa cadeira de rodas, quando a posição sentada já não era possível com a cabeça do meu bebé prestes a sair, obrigada a deitar-me na cama com as pernas nas perneiras, quando só considerava apenas a posição de joelhos, tudo precipitado, obrigada a gritar para que o Artur se juntasse a mim, pois até então tinha sido impedido de entrar no serviço... A enfermeira rompeu a bolsa de água, fez-me uma episiotomia sem me avisar, ordenou-me para fazer força e parar de gritar...

No entanto, o Félix foi deitado sobre a minha barriga durante alguns instantes, ainda coberto de vernix, quentinho e viscoso, que felicidade, que sensação magnífica, mágica, inesquecível... Adorei esse momento! Mas muito rapidamente o meu bebé teve direito ao protocolo, secado, limpo, aspirado, pesado... Tive-o alguns minutos sobre o meu dorso, os nossos corpos separados pelas blusas e lençóis, e ele chorava tanto! Estava esgotada, tinha frio, não tive força para me opor. Extirparam-me a placenta e a sua bolsa, depois coseram-me... tinha frio e dores. Pediram ao Artur para voltar para casa e apenas regressar no horário de visitas autorizadas (2h ao almoço e 2h no fim do dia). E separaram o Félix de mim. Ele chorava continuamente. Fiquei em observação numa maca no corredor. Pedia repetidamente para me trazerem o meu bebé, ninguém me quis ouvir. Disseram-me: “temos de verificar as suas constantes primeiro...” A nossa separação durou pelo menos 1h. E o Félix só parou de chorar quando finalmente o pude por à mama. Mamou durante muito tempo, com força, das duas mamas, depois acharam que estava a mamar há demasiado tempo e foi-me retirado para que dormisse numa pequena divisão. Um pouco mais tarde fomos levados juntos para o quarto e não fomos mais separados. Dos dois partos, guardo uma recordação maravilhosa de toda a fase de trabalho de dilatação em casa. A subida em intensidade da força da contração, a perda das águas no sofá velho em pele para o Robin, o tempo que passei ajoelhada sobre uma almofada em frente ao sofá para terminar o último tricot para o Félix... Do tempo, só, na calma e penumbra da casa adormecida, a sentir e escutar os meus bebés chegarem. Para o meu terceiro bebé que ia nascer, queria fazer tudo de forma a que o parto inteiro permanecesse dessa forma, queria tentar guardar o melhor e evitar o pior. Que essa fase de trabalho na calma e à escuta do meu corpo se pudesse prolongar naturalmente até ao nascimento. Que o meu bebé nascesse na calma, sem agitação e protocolos inúteis e pudesse encontrar a continuidade dos meus braços e dos meus seios sem separação, na doçura e felicidade do encontro.

Um ano antes da sua concepção, tive um aborto com 1 mês e meio de gravidez. Foi um bebé pequenino, discreto, pois quando procurava sinais de uma gravidez, soubemos apenas na véspera do início do aborto que esperávamos um bebé. O meu corpo não me avisou desse bebé, que não se desenvolveria no meu ventre, apenas o senti mesmo antes de começar a perdê-lo...

Que prova terrível, que dor, que sofrimento, despedir-me do meu bebé, sem mesmo que este se formasse. Bebé Olive, que tem as mesmas raízes que uma oliveira na nossa varanda. Depois de várias horas de espera nas urgências obstétricas, recusei a medicação para acelerar a expulsão, e vivemos o trabalho em vários episódios, naturalmente, em casa, sempre de dia e embora pareça estranho, reaprendi a confiar no meu corpo e nas minhas capacidades de parir. Vivi as dores, as contrações que apertam os rins, o baixo-ventre, desfrutei do reconforto e alivio da água quente do banho... Depois do nascimento do Félix fiquei com medo do parto, depois da perda de bebé Olive voltei a ganhar confiança e quis parir, vivê-lo plenamente. Obrigada bebé pequenino. O parto em casa foi-se tornando uma evidência para mim, e depois para o Artur também. Pouco a pouco, transmiti-lhe artigos, informações... E ele por sua vez informava-se igualmente, ia ver inúmeros links que partilhava no facebook.

O parto em casa já se tornara a solução óbvia, mas para nós estava fora de questão pôr a vida do nosso bebé em risco. Um parto sem assistência não era opção para nós. Por isso desde o início da gravidez que escolhemos a nossa doula assim como as profissionais de saúde. Para além disso, o hospital ficava a 10 minutos de carro no caso de ser necessário recorrer às urgências. E dada a rapidez dos meus dois partos anteriores, era de qualquer forma mais prudente organizar tudo para reunir as melhores condições para um parto acompanhado em casa do que pensar parir no hospital, visto não termos, muito provavelmente a possibilidade de chegar lá a tempo...

Portanto, nessa noite de 1 para 2 de Outubro fui deitar-me sabendo que finalmente estava tudo pronto para o nascimento do bebé! Já dormiam todos. Fui como muitas vezes a última a ir para a cama. Deitei-me mas não consegui adormecer. Tinha uma contração que não passava. Virei-me, revirei-me e voltei a virar-me mas de nada serviu. Na semana anterior tinha acontecido a mesma coisa, mas após cerca de uma hora, acalmou e pude passar uma noite normal. Esta contração não estava a passar decididamente. Ao fim de uma hora, decidi levantar-me para ver se acalmava. Mas ao mesmo tempo sabia que se me levantava era porque muito provavelmente se tratava do início do trabalho de parto... Resolvi não ligar as luzes para não acordar a casa. Preferi ficar no andar de baixo, que me era mais familiar. Experimentei os sofás. Primeiro o de tecido onde me deitava habitualmente várias vezes ao dia para descansar quando tinha contrações: o mesmo sofá em frente ao qual me ajoelhei há 4 anos e meio durante o trabalho de dilatação do Félix. Mas como receava perder as águas no sofá, fui para o sofá em pele. Deitei-me e quando a contração era demasiado forte, rodava para o lado para me pôr de joelhos no chão. A contração aumentava de intensidade, tornou-se muito dolorosa.

No caso do Robin e do Félix tive apenas uma contração que durou o tempo todo do parto e que foi aumentando de intensidade até ao nascimento. Para o Robin até tive a injeção da epidural durante a contração e fui convidada a puxar sem distinção de altura pois a contração era única e sem intervalo. Desta vez não o sei dizer com certeza. Sei que durante a primeira fase do trabalho, deitada na minha cama, tinha uma contração que não passava. Depois, uma vez em pé, tenho a sensação que estava sempre contractada mas há claramente alturas em que a contração aumentava de intensidade até me fazer dobrar no chão. Assim acho que tive várias contrações, tudo bem pensado é mais clássico e razoável.

Decidi então subir para o sótão para ver se me sentia bem ali. Para escolher as luzes que ia acender, encontrar o sítio onde me sentia melhor. Se ia abrir o sofá-cama ou deixá-lo dobrado, se ia encher a banheira... Já sabia desde os sofás do andar de baixo que não era um episódio de contração como a semana anterior, que o bebé estava mesmo a chegar. No sótão os acontecimentos aceleram-se. Tinha agora dificuldades em deslocar-me. Era obrigada a deixar-me cair de joelho no chão mais frequentemente. Decidi descer e acordar o Artur. Foi uma tarefa muito difícil, tive de descer as poucas escadas em várias etapas. Estava cada vez mais parada pelas contrações que já não me deixavam mexer. O tempo começava a faltar! Já eram 3 e meia da manhã. O Artur pôs-se imediatamente em modo operacional. Subiu comigo, perguntou-me do que precisava, se chamávamos a equipa, em que ordem. Decidimos chamar primeiro a Dona Glória, a mais experiente. Ela fez questão de falar comigo quando já não me sentia capaz de conversar. Pediu-me para fazer um resumo e de situar a dor das contrações. Estava ao nível do baixo-ventre. A Dona Glória disse logo que ainda estava a dilatar e que não tinha pressa. Assim que desliguei, senti a dor entre as pernas... O Artur deixou então várias mensagens nos dois telemóveis da Celeste. Depois falou com a Sandra, a nossa doula, que percebeu que tinha de vir o mais depressa possível. Ao telefone, ouviu que eu ria quando o Artur disse que o bebé estava a chegar. Eu sabia que mais uma vez ia ser muito rápido e ela percebeu muito bem que a minha descontração não se devia a um simples início de trabalho de parto... O Artur também deixou mensagens à Marie e à Sofia. Enquanto ele tratava de avisar toda a gente, e enquanto estávamos aos pés do sofá, decidi perante as dores que se tornaram quase insuportáveis, de ir para a casa de banho preparar um banho. O Artur limpou a banheira de imediato e comecei a enchê-la.

E fui vencida pela força das contrações! Uma força sobre humana, vinda das entranhas da terra, das entranhas da vida, do mais profundo do meu ventre, uma força incrível, inestimável, a força da vida, uma força animal e pujante, que ia de cima para baixo. Empurrou a cabeça do meu bebé para a minha vagina. Estava ajoelhada em frente à banheira, a testa apoiada no rebordo da banheira, uma mão agarrada à banheira e a outra entre as minhas pernas. Ao mesmo tempo que a cabeça desceu, penso recordar-me de ter perdido líquido. A bolsa rompeu-se durante a expulsão. Tinha pouco líquido.

Via o Artur a andar de um lado para o outro que nem uma barata tonta. Ia e vinha, ora estava no meu campo de visão, ora saía da divisão. Soube posteriormente que estava a instalar o portátil para filmar os eventos. Um filme precioso onde se vê à justa o nascimento! Acho que estava sozinha quando a cabeça do bebé desceu para a vagina, mas a partir daí, ficou ao meu lado na casa de banho. Sei que a determinada altura perguntou-me se precisava de alguma coisa, acho que lhe respondi que não, apenas que ficasse ali. A cabeça do bebé ficou ali durante uns breves instantes entre o meu ventre e o mundo exterior. Não sei dizer quanto tempo. 30 segundos ou alguns minutos... Tive tempo de me perguntar se a cabeça conseguiria passar pois os tecidos já estavam estirados ao máximo... Mas não tive tempo de refletir muito sobre o assunto! A vaga voltou, com toda a sua força, e de repente a cabeça do bebé estava na minha mão. Que sensação estranha, mágica e magnífica, sentir a cabeça do meu bebé, tocar nos seus olhos, no seu nariz... Depois fui novamente submergida pela vaga e desta vez foi o corpo todo do meu bebé que deslizou para fora do meu ventre para os azulejos da casa de banho enquanto segurava preciosamente na sua cabeça.

Que emoção, que descoberta, que surpresa, que encontro, que felicidade, que feito, que alegria! Artur e eu riamos de felicidade, de surpresa e de emoção! O teu papá foi o primeiro a ver que eras uma menina. Passei da posição ajoelhada à posição de lótus para te pousar nas minhas pernas. Choraste um pouco com um barulho de gorgolejo, massajei o teu rosto. Depois puxei um pouco pelo cordão para te pegar ao colo e colocar-te ao peito.

Os3

Tínhamos conseguido. Nasceste, de boa saúde, da força da natureza e na doçura dos nossos braços. Era perto das 4h da manhã, no dia 2 de Outubro de 2012.

CloeMama

A Sandra, a nossa querida doula, chegou cerca de 20 minutos mais tarde. Depois veio a Celeste outros 20 minutos depois. E a Dona Glória e a Marie outros 20 minutos mais tarde. A Sofia trabalhava nessa noite, não pôde vir. A Sandra abraçou-nos, acariciou-me os cabelos, trouxe-nos o conforto do seu calor, do seu afecto, da sua força e da sua boa disposição e confiança.

Se um dia me for dada mais uma vez essa felicidade e honra de levar a vida na minha barriga, escolherei novamente de ser acompanhada nesta maravilhosa aventura por uma doula, e de certeza que a Sandra será essa doula. A presença, a disponibilidade, a escuta, a benevolência da Sandra foram muito preciosos durante a minha gravidez, durante o parto e nos dias que seguiram o nascimento da Cloé. A Sandra ajudou-nos a concretizar o nosso projeto de nascimento em casa, encontrar os profissionais de saúde (enfermeiras obstétricas e parteira) que nos acompanharam também, refletir sobre as nossas escolhas e cimentar a nossa autoconfiança nessas decisões, sentir-nos sempre apoiados, encontrar informações sobre o seguimento da gravidez, sentir-nos mais seguros sempre que surgiam dúvidas. A Sandra escutava-nos, tinha confiança em nós, nunca duvidava das nossas palavras e nunca nos julgava. Sabíamos que ela estava sempre perto de nós. Por mail, telefone e ao nosso lado, a Sandra esteve sempre connosco, à distância certa. Não teve o papel de uma mãe nem de uma irmã, nem só de uma amiga, nem só de uma profissional. Em poucas palavras, podemos qualificar a nossa doula como “aquela que nos quer bem”.

A Celeste, a nossa enfermeira obstétrica de predileção, trouxe-nos segurança e confiança, tomou conta do desenrolar dos eventos seguintes. Colheu um pouco de sangue do cordão, pois sendo ARh-, tínhamos de fazer uma análise do teu sangue para saber se eras Rh+. Depois tratou da expulsão da placenta. Tentámos várias posições, sem resultado. Depois propuseram-me a entrar no banho que tinha preparado. Afinal de contas não o preparei em vão! Entrei no banho 1h15 depois do teu nascimento. Foi o teu primeiro banho, coladinha contra o meu peito.

BanhoPlacenta

A placenta acabou por sair 2h após o teu nascimento. Depois a Celeste preparou tudo para o teu papá cortar o cordão. Pusemos de lado a tua preciosa placenta para mais tarde a plantar juntamente com as raízes da tua árvore, a laranjeira. 2h15 depois de nasceres, saíamos do banho para nos instalarmos no sofá na divisão ao lado. Um tempo depois o teu papá pegou em ti para se pesar contigo ao colo para ter uma estimativa do teu peso: 3,400kg de pequenina bola de amor de 50 cm. Depois voltaste para os meus braços, pele contra pele e continuamos a descobrirmo-nos durante várias horas.

K+C

3h30 depois de nasceres o Robin acordou e subiu para te vir descobrir, depois veio o Félix, meia hora mais tarde e não nos deixou mais.

A tua vida começou assim, nesta bonita e memorável terça-feira.

SaidaRegistoNascimento

Texto e fotografias por Kaıté Psicolor.

Tradução: Lucie Marinho


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