Susana, Henrik e Maya

Uma semana depois de estar em casa escrevi uma carta à minha filha. Na verdade uma carta às duas falando da minha percepção de tudo o que havia acontecido.

Quando me pediste para te escrever a minha história do parto pensei duas coisas: primeira, mas qual parto?, segunda, de alguma forma já a escrevi uma vez. Mas disse-te que sim e ainda bem, porque a história reescreve-se continuamente, à medida que o tempo passa, ganhando novos significados, preenchendo vazios, aprofundando sombras e acalentando ondas.

Nunca ninguém está preparado para que algo corra mal. Muito menos se está preparado para que algo corra efectivamente muito mal. Mas correu e chama-se eclâmpsia.

A minha gravidez foi tranquila salvo um episódio que me levou ao hospital de urgência no 5º mês, onde foi descoberto um mioma benigno, retirado imediatamente pelas suas dimensões largas. Foi a minha primeira experiência de hospital e correu mal. Desde 3 médicos a observarem-se sem me dizerem o que se passava, não me ter sido dada a oportunidade de ser acompanhada pelo meu companheiro. Nunca tremi tanto com medo, medo de que algo se passasse com a minha bebé. E, na altura senti-me tão frágil e desempoderada. Tão à mercê de um espaço que me pareceu tudo menos humano. Depois de elaborar interiormente esta experiência quis preparar-me para o que viesse, fazendo elevar a minha voz perante um despotismo que advém também ele do cansaço ocupacional e de uma cultura em que o médico é visto como ponto máximo de uma relação que ser quer vertical.

Eu sabia o que queria que acontecesse. Estar o máximo de tempo em casa após as contracções começarem, balançando-me na bola de cá para lá, ouvindo as mesmas músicas que acompanharam a nossa gravidez; tomar duche, dar à luz de pé como no sonho que me avisou que estava grávida meses antes, fazer força, ver a minha filha nascer e pô-la junto ao meu peito, dar-lhe de mamar. Queria que o Henrik estivesse presente, que fosse ele a cortar o cordão umbilical já depois de ele parar de pulsar, queria que fosse ele a vesti-la, queria nunca perdê-la de vista, ouvir o primeiro som, protegê-la das luzes, das vozes estranhas, aquecê-la no meu colo.

Mas não foi nada assim. Foi muito longe de ser assim. Eclâmpsia é uma complicação na gravidez ligada à presença de tensão alta, convulsões e em alguns casos coma, sendo uma das principais causas de morte da mãe no parto. Normalmente, com acompanhamento médico é sinalizada a pré-eclâmpsia, especialmente a partir do 2º trimestre. No meu caso não foi. Fiz todas as consultas, todos os exames e nada foi detectado. Mas os sinais sempre estiveram lá. No primeiro trimestre correu tudo bem, praticamente não aumentei de peso e houve uma fase que até perdi. Depois, no final do segundo trimestre houve um aumento desenfreado culminando num aumento significativo de 22 kg, com mais de um quilo por semana. Os médicos foram chamando a atenção, perguntando sobre a minha alimentação ao qual ia sempre respondendo que tinha bastante cuidado e sempre fui comendo com moderação, não entendia porquê tanto peso (bem aqui para nós, cometi alguns pecados de gula de chocolate, gelados que acaba sempre por vomitar e ovos estrelados). Mas nunca foi investigado a fundo. Pensou-se que estaria associado à minha propensão para a retenção de líquidos. E, até mesmo, quando me queixei de acordar com a cara e os pés inchados não foi visto como um sinal de alerta. Só agora sei que pés inchados e cara inchada ao acordar podem ser um sinal, pois são apenas normais de acontecer ao final do dia.

Naquela semana, com 39 semanas, tinha ido pela última vez ao Hospital São Francisco Xavier para fazer a última consulta com o médico, o qual me quis fazer o toque que recusei. Dizia ele “ Então mas não quer que o bebé nasça?” “ Quero sim, no tempo dele”. Disse-me então que deveria lá voltar para fazer uma última consulta e que esta já seria no bloco de partos porque as consultas já estavam cheias e não haviam médicos suficientes. Nunca voltei.

40 semanas certas. Domingo dia 2 de Março de 2014. O dia todo passei com dores de pescoço. Doía-me o pescoço e sentia-me entupida. Parecia-me uma crise de sinusite que tinha tido há anos. E associando à sinusite deixei que passassem as horas. Até chegar ao ponto de não aguentar mais. Já não era só o pescoço, era a cabeça com umas das dores que quase não me aguentava em pé. Fomos às urgências do hospital de Cascais. E entrei com o Henrik tentando explicar à enfermeira o que se passou. Quis fazer-me um toque para ver o bebé e pediu para que o Henrik saísse e eu chateada disse-lhe que o queria ali. Ele ficou. Ela fez o toque e já não me consigo recordar se mediu ou não a tensão. Disse que estava tudo bem mas que iria ser vista pelo médico e fazer um CTG por precaução. Lembro-me de estar estranhamente tranquila e rezar para que não tivesse que ficar que pudesse voltar para casa. Ao cadeirão do CTG chegou uma médica de mãos nos bolsos de uma bata amarela. Chamou-me ao gabinete e disse que estava tudo bem, quis fazer uma ecografia e referiu que o bebé está já muito bem encaixado e não deveria demorar muito para nascer. Que era grande mas que estava tudo bem. Mandou-me para casa com paracetamol.

Jantámos mas fui-me deitar cedo. A partir daí lembro-me de quase nada. O Henrik diz que acordou comigo a meio da noite com convulsões. Chamou a nossa querida vizinha e juntos chamaram o 112. Lembro-me apenas de estar à porta da ambulância e da minha vizinha dizer “ Vai correr tudo bem”. Sorri e apaguei. Depois disto só me recordo de ver um vulto enevoado do meu irmão a dizer que estava tudo bem. Perguntei pela Maya. O meu pai disse-me “ Está com o Henrik, nasceu bem e é linda”. Sorri. Tinha tido outra convulsão já no hospital, entrado em coma. Foi necessária uma cesariana de urgência para retirada do bebé, para que eu não morresse nem a Maya.

peito

A minha filha nasceu assim. Com uma mãe adormecida, sem saber provavelmente muito bem onde estava. Com o pai do outro lado da porta. E saber que ela nasceu assim, sozinha ainda me dói muito. No início também me doía não ter passado pela dor, pelo processo, pela experiência. Semanas depois nos encontros de mãe de pós-parto de cada vez que ouvia uma estória de parto chorava por dentro porque me sentia menos mãe e menos mulher por esse processo de renascimento não me ter sido dado pela vida. Mas deu. Naquela mesa, naquela noite eu morri e renasci. E esse momento de morte e de vida que fui eu e a minha filha, foi o nosso parto. E agora, aos poucos, a tristeza que ainda subsiste num lugar que nem sempre destapo, vai-me ensinando que devo honrar o nosso parto exactamente como ele foi, sentir-me abençoada por toda a vida e morte que ele conteve e encostar-me sempre nessa lembrança nos momentos de maior dúvida, com a fé de quem foi dada uma oportunidade de renascer e de dar vida.

Foram 4 dias na UCI – Unidades Cuidados Intensivos -. 4 dias sem conhecer a minha filha. Traziam-me fotos dela, tão bonita e tranquila. Dormia muito, talvez como me disse a minha grande amiga Cláudia “ parece que ainda está ligada a ti”. Foi doloroso mas não me deixei levar pelo medo.

Vi-a ao quinto dia. Fui levada pelos corredores de cadeira de rodas até ao quarto onde ela esteve sempre com o pai. Começou a mamar de imediato e soltei um grito da primeira vez que abraçou o meu peito para se alimentar. Todos nos rimos. Estávamos juntas. Estávamos finalmente juntos, tinha sido um longo caminho para chegarmos uma à outra. Ficámos sozinhas ao final do dia e tive medo de não a conseguir amamentar, que se tivesse esquecido de mim.

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Tinha-me sido tirado leite durante esses dias que era cuidadosamente enviado do piso 3 para o piso 5. A Maya alimentou-se sempre do meu leite e eu agradeço por essa oportunidade e o trabalho que foi feito para que isso acontecesse. Tirar leite naquelas condições não foi fácil, foi doloroso, mas valeu a pena. A minha filha é a minha maior bênção.

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A cura vai-se fazendo aos poucos. Estar com outras mulheres e ouvir as suas histórias, escrever e estar comigo mesmo de cada vez que cozinho, leio, converso, danço ou oiço música, vai remendando e encaminhando-o neste labirinto de mim mesma. Nem sempre é um caminho consciente, nem sempre é um caminho fácil mas é sim um caminho que me faz melhor Mãe e certamente melhor pessoa.

Boba

Obrigada querida Marta.

Texto e fotografias de Susana Rodrigues.


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