Tina, Carlos, Guilherme e Carolina

Os meus dois amores…

Estive grávida duas vezes e tenho uma menina de 7 anos, a Carolina, e um menino de 4 anos, o Guilherme.

Em Janeiro de 2007 marquei o 1º CTG no Hospital S. Francisco Xavier para o dia 17. À hora marcada lá estava eu, pensando sempre que daí a 1h/2h estava a voltar para a margem sul. Depois de algum tempo ligada à máquina, apareceu uma enfermeira que me disse não haver grande actividade e que teria de passar à sala da médica. Fui, foi-me feito o toque e ouço “a Sra. tem quase três dedos de dilatação, por isso, por uma questão de prevenção, é melhor cá ficar”. Entrei em stress porque estava mentalizada que faltaria, PELO MENOS, mais uma semana. Surgiu logo uma enfermeira com uma lâmina na mão e após a tricotomia entregou-me dois clisteres para fazer. Preparei-me seguindo as indicações da enfermeira e fui para uma sala, devidamente equipada e apetrechada. Estive lá algum tempo com a minha mãe, sempre pensando que seria apenas para passar a noite; qual não foi o meu espanto que uma enfermeira surge e me diz que tem de me “colocar o soro”, na altura nem perguntei nada, não sei bem porquê. Quando surgiu uma equipa e me perguntaram sobre a epidural. Epidural??? Não estava a entender! Perguntei à médica o que se passava porque calculava que estaria só em vigilância, ao que me respondeu que não, que eu já estava em trabalho de parto e que inclusive tinham aplicado uma “substância” para acelerar um pouco mais para eu não estar tanto tempo em sofrimento. Fiquei atónita e automaticamente pedi à minha mãe que informasse o meu marido, que estava a trabalhar.

A partir daí as contracções aumentaram bastante mas a bolsa não rebentava então induziram o rebentamento com uma peça metálica bastante comprida, que me provocava ainda mais dores, quase que trepava pela cama, tal era a dor e o desconforto. Quase meia hora depois e ao fim de várias tentativas por parte de três pessoas, a bolsa rebentou e o processo acelerou. Acabei por levar a epidural e o meu marido chegou. Nessa altura foi rápido, fiz tudo dentro do que me ensinaram nas aulas de preparação para o parto mas também sentia que era instintivo. Recordo-me perfeitamente de ter a cabeça da minha filha de fora e saber que seria o último esforço a fazer. Foi tão bom, tão quentinho, tão escorregadio, tão mágico, tão indescritível… o meu marido ainda tentou “espreitar” mas a enfermeira não deixou, dizendo que tinha de dar apoio à esposa e deixar o resto com a equipa. Eram 3h15 da manhã do dia 18 de Janeiro de 2007 quando ela veio ao mundo. Limparam-na em segundos e colocaram-na nos meus braços. Esteve pouco tempo comigo porque de seguida foi limpa, medida, pesada, eu cozida e limpa… enfim… cerca de 1h depois consegui ficar com ela “a tempo inteiro”, tão pequenina, tão indefesa, tão minha J

Senti que até aí ela estava sempre tão protegida, tão quentinha, tão embalada, tão aconchegada e naquele momento deveria sentir o oposto, com a agravante que não conhecia ninguém e a única referência, estava a uns metros a ser limpa. Se fosse hoje não aceitaria ficar no hospital sem sinais de parto mais evidentes, mesmo que isso implicasse voltar lá ao fim de 2h. Entristece-me que naquela noite, que era a noite mais especial da minha vida, nada me tenha sido explicado e tenha sido tudo tão premeditado sobretudo sem o meu conhecimento, quando percebi, era tarde demais para voltar para casa.

Já o parto do Guilherme… merece outro destaque.

Mais uma vez marquei o 1º CTG, este no consultório do obstetra, perto do Hospital S. Francisco Xavier, onde o mesmo é director de obstetrícia.

Lá fomos nós saber como estava o nosso menino, que segundo o médico, óptimo e sem grandes sinais de querer sair. Após o CTG o médico fez-me o toque e espantou-se a olhar para mim dizendo “vou fazer outra vez porque devo ter-me enganado”. Voltou a fazer e voltou a dizer o mesmo, à terceira vez perguntou-me se eu sentia dor ao que respondi que não. Questionou-me então se eu tinha sentido dores nos últimos dias e disse que sim, mas que não tinha dado grande relevância. Bem… ele chamou o meu marido e disse que eu estava com quase seis dedos de dilatação, que devia ir para casa repousar e assim que sentisse o rebentamento da bolsa, ou começasse a sentir contracções, deveria ir de imediato para o Hospital. Optámos por não ir para a margem sul, até por sugestão do médico e ficámos em Carcavelos, em casa dos meus sogros. Eu senti que o meu filho ia nascer nessa noite, às 38 semanas e 5 dias, tal como a irmã, coincidentemente.

Tinha sido informada que teria de fazer cesariana uma vez que ele estava em posição pélvica e isso para mim foi um choque porque na altura o médico explicou-me que dificilmente seria parto normal por ele estar com “pernas à chinês”. Eu queria muito um parto normal!

Estava eu na cama há menos de duas horas quando me senti toda molhada e percebi que era a bolsa a rebentar. Foi tão bom, tão quentinho, tão diferente da primeira vez. Levantei-me, chamei o meu marido e fui a casa de banho para começar a vestir-me. Quando levanto a perna para vestir as calças sinto algo a sair, por instinto coloquei a mão e a primeira coisa que me ocorreu foi colocar para dentro, aquilo que tinha saído. Segundos depois voltei a sentir o mesmo e foi quando segurei e fui ver, era então o cordão umbilical. A minha situação no momento ficou, de certa forma, cómica: eu a agarrar o cordão com a mão direita, as calças pelos joelhos, uma gabardine até aos pés e a descer as escadas do prédio. Era 1h30 da manhã quando liguei ao médico, que estava a chegar a casa. Ele que sempre foi uma pessoa muito calma e com tom de voz baixo, ficou o inverso quando lhe expliquei tudo. Eu continuava calma e a estranhar a reacção dele. Mandou-me ir para o Hospital de imediato, deitada no banco de trás do carro, com as pernas para cima. Em segundos, desligou, ligou para a obstetrícia, avisou a equipa de serviço e ligou para a esposa para dizer que ia para o Hospital, explicando a situação. Voltou a ligar-me. Íamos então no carro a quase 200 km/h na A5, o médico a dar indicações e eu com contracções seguidas e a tentar verificar a pulsação do cordão umbilical. Ao chegarmos estava já a equipa na rua à minha espera, assim como o médico. Fui levada de urgência para o bloco, fizeram uma eco e ao despirem-me ouvi o médico do plantão a dizer “Dr. o bebé já tem o pé de fora”. Até este instante estive sempre tranquila e feliz porque estava a pouco tempo de ver o meu filho e convencida que até ao último momento poderia ser um parto normal. Comecei então a ver turvo.

Foi no dia 27 de Novembro de 2009, às 3h04 da manhã que o meu filho nasceu de cesariana de urgência, com a mãe a dormir devido à anestesia geral. Quando acordei e vi aquele bebé vestido ao meu lado entrei em choque, quis saber tudo em segundos, a que horas tinha nascido, quanto pesava, quanto media, se lhe tinham dado algum alimento... Não tinha percebido que tinha tido anestesia geral e não acreditava que não tinha visto o meu bebé a nascer nem tinha sentido o contacto pele com pele.

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Um mês e meio depois, na consulta de revisão do parto, o médico explicou-me que a situação que tínhamos passado tinha o nome de “prolapso do cordão umbilical”. Após as suas explicações é que percebi o perigo que o meu menino enfrentou. Salvou-se pelo pé direito!

Quando penso neste dia não sei conseguiria alterar alguma coisa, talvez uma ida para o Hospital antes do rebentamento da bolsa. Não sei. A grande tristeza que tenho é de ter tido a anestesia geral, perdi o momento do nascimento e os momentos seguintes. A confusão que senti, as dúvidas, a angústia no momento em que vi o meu bebé foi estranhíssima… Mas acho que apesar de tudo foi único.

Texto e fotografias de Tina Aguiar.


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