Vasco, Isabel e Gabriel

2 de Dezembro, 12h10

Caminho pelo corredor vazio do bloco de partos, por onde ecoam os gritos da minha companheira e as vozes do pessoal médico. Entre ordens de “Empurre!” e “Faça força!” em vozes que não conheço, sinto o sofrimento da Isabel. O parto está complicado, o bebé não consegue sair. O nascimento de outro bebé algumas horas antes, na sala anexa à nossa, serviu para ter uma ideia do barulho e evita que esteja aterrorizado, mas não me tranquiliza. Por isso ando de um lado para o outro, conto as lajes no chão duas a duas, tento que o tempo passe o mais rápido possível até ouvir o choro do meu filho. Nem penso em alternativas. E vou recordando outros momentos...

29 de Abril, 23h42

Na vida de um casal há discussões parvas. Parvas ao ponto de ambos estarmos amuados sem já sabermos muito bem porquê. Vou-me deitar. A Isabel já está na cama há várias horas, virada para o seu lado. Quando me sento, ela diz-me para ir à casa de banho buscar algo. Em cima do lavatório está o teste. Positivo. Há mais de um ano que tentávamos engravidar. Algumas semanas antes tínhamos feito testes para saber se havia algum problema. Tudo negativo, tudo funcional. Às vezes, basta realmente descontrair. Espero uns minutos, respiro fundo, volto para o quarto, dou-lhe um beijo e conversamos.

1 de Dezembro, 23h45

É sábado e estou estoirado. Incrível como ser desempregado profissional pode ser trabalhoso e cansativo. Na segunda tenho apresentações de projectos de formandos meus e tenho de preparar muita papelada no domingo. Deito-me e imediatamente fico sonolento, começando a fechar os olhos. “O que é isto?”, oiço, “Vasco, estou a sentir qualquer coisa estranha...” Apercebo-me da Isabel a ir para a casa de banho. Ela chama-me. Custa-me levantar mas sinto que é melhor fazê-lo. “Acho que isto não é urina.” Não é. Ligo ao meu irmão, peço-lhe boleia para o hospital. Logo se vê se o Gabriel resolveu sair mais cedo ou temos um falso alarme. Vestímo-nos tranquilamente. Temos as malas arrumadas e tudo preparado: roupas para o bebé, mudas para a mãe, produtos de higiene para ambos e câmara fotográfica para o pai. A minha mãe e o meu irmão chegam. Entre arrumações finais e conversa, temos todos a sensação que “é desta”.

01

25 de Agosto, 14h35

Enquanto acampamos em Monte Gordo, e passeamos pelo Sotavento Algarvio, falamos sobre o bebé, como cresce, como já o sentimos mexer, como reage ao meu toque ou à minha voz. Ainda o sinto como algo abstracto, como uma ideia de algo que queremos muito fazer mas ainda não concretizámos. A paisagem do Guadiana, em Vila Real de Santo António, a sua serenidade e o calor do princípio da tarde, a felicidade da Isabel, a maneira como estamos próximos um do outro formam quadros de sensações que não esqueço e ainda é como melhor recordo a gravidez.

02

2 de Dezembro, 02h45

Estamos na sala 2 do Bloco de Partos do Centro Hospitalar do Barlavento Algarvio. Ao chegarmos às urgências, pouco depois da meia-noite e meia, a Isabel foi rapidamente encaminhada para um assistente na triagem. Após uns 20 minutos, chamaram-me para ir ter com ela. Continuava a perder o líquido mas ainda sem contrações. O Gabriel, esperado para o dia 12, queria mesmo sair. Entre as mudanças de roupa, o acomodar à sala, falar com as enfermeiras de serviço, o atendimento médico e uma corrida rápida à cantina para ir buscar água e biscoitos (“Vasco, estou cheia de fome e não me deixam comer nada!”), o tempo passou num instante. Pelo meio, um casal teve o seu bebé. Os gritos da mulher não são nada como os dos filmes, mas o parto em si pareceu-me rápido. Por enquanto, a Isabel ainda não tem contrações, o quarto está quente e está tudo muito, muito tranquilo. Tento brincar com ela, para que descontraia e consiga dormir um pouco, e decido fazer uma foto de família. Tenho uma aversão natural a que me tirem fotografias, pelo que fui sempre adiando este momento, mas tem mesmo de ser agora. Após isso, e com algumas massagens, a Isabel consegue adormecer e eu faço o mesmo, num sofá minúsculo encaixotado entre um armário de instrumentos médicos e a parede.

03

27 de Outubro, 18h15

A paternidade muda um tipo das formas mais imprevistas. Cheguei aos 33 anos sem ter alguma vez pegado numa linha e agulha – e não o afirmo com orgulho ou vergonha, mas como sendo um facto. Certa vez fiz companhia à Isabel num atelier de bonecos em tecido e adorei a experiência. Aos poucos, a costura e o trabalho em tecidos tornou-se um passatempo e o leque de objectos foi alargando. Com a gravidez do Gabriel, acabei a fazer almofadas de amamentação para grávidas e estas tornaram-se a nossa prenda especial para amigos com bebés. Mais radical foi a minha mudança face às ecografias. Via-as basicamente como um teste de Rorschach num écran no qual um médico conseguia ver um bebé e eu algo parecido com uma equipa de râguebi em formação ou um casal de lulas a acasalar. Com o Gabriel adquiri instantaneamente um grau de conhecimento enciclopédico sobre morfologia de um embrião, identificando com perfeita exactidão orgãos e membros e apontando os valores todos à Isabel. O facto dos ginecologistas geralmente discordarem de mim só revelava a péssima formação médica deles.

30 de Novembro, 17h40

Última ecografia. Faltam menos de 15 dias para a data esperada de nascimento do Gabriel. O doutor diz-nos que está tudo bem, que o bebé tem 2,900kg e marca o primeiro “toque” para a segunda-feira seguinte, dia 3 de Dezembro. Apesar de ter sido uma gravidez saudável e sem sobressaltos, a Isabel já anda estoirada - o bebé, o trabalho, a ansiedade já pesam bastante. Recebe baixa até ao nascimento, contando organizar calmamente os últimos pormenores do parto e preparar a casa para o futuro novo residente. A minha mãe vai avisando que agora ele pode sair a qualquer momento. Eu afirmo que não há nenhuns sinais disso, e tenho a certeza de que teremos mais meia dúzia de dias para desfrutar.

2 de Dezembro, 11h39

Acordámos com o começo das contrações, pouco depois das 5 da manhã. Foram aumentando de ritmo e intensidade, mas havia pouca dilatação. Por volta das 11 horas, e após um terceiro toque, a enfermeira finalmente concorda que é altura de chamar o anestesista para a epidural. A Isabel está bastante cansada e cada vez mais nervosa. As massagens resultaram enquanto dava para estar de pé, mas deitada torna-se muito mais difícil ajudar. Dou-lhe as minhas mãos para ela apertar quando vem uma contração e tento ajudá-la a manter a respiração. Gostava de ter alguma certeza do que estou a fazer mas, como parece ir resultando, tento manter-nos calmos e também inspiro e expiro lentamente, depois em sopros mais rápidos e curtos. As minhas mãos, felizmente, estão dormentes de serem esmagadas e já não sinto dor. Durante a epidural a Isabel abraça-me e apoia-se em mim, e digo-lhe o quanto estou orgulhoso dela e como ela é forte. Entre beijos e carinhos, a epidural começa a fazer efeito e saio para urinar e lavar a cara. A Isabel fica com uma enfermeira a acompanhar. Demoro um quarto de hora. Quando entro novamente no quarto estão lá sete pessoas e dizem-me que o bebé vem a caminho...

2 de Dezembro, 12h18

Os gritos da Isabel tornam-se cada vez mais intensos. Embora firmes e controladas, é palpável nas vozes dos médicos que as coisas não estão a correr bem. Oiço que o bebé tem mesmo que sair. Torço o pescoço, tento pensar em coisas que me distraiam da tensão. Lembro-me que deixei o telemóvel com som na sala e espero que ninguém resolva ligar-me. Vou contando as lajes duas a duas.

2 de Dezembro, 11h59

Os médicos dizem para a Isabel fazer força mas vejo que ela está cansada e, pior de tudo, nervosa. Ao lado dela, tento-a ir acalmando, apoiando-lhe a cabeça e segurando-lhe a mão. Não penso em graçolas ou me ocorrem piadas. A minha mente está em branco, totalmente focada em perceber o máximo do que se está a passar à minha volta e como ajudar a aliviar o sofrimento da Isabel. O cheiro intenso a fluídos corporais, as luzes brancas e o calor (agora sufocante), as várias vozes a darem ordens, a presença intimidante do médico sobre a minha companheira não ajudam. Após quase vinte minutos de tentativas e com o bebé em dificuldades para sair, pedem-me para sair – vai ser um parto assistido. Hesito em abandonar a Isabel, mas não me parece que começar uma discussão neste ponto vá ajudar as coisas. Desolado, saio da sala.

2 de Dezembro, 12h25

Houve um momento de pausa, mas cheio de tensão. Oiço um médico dizer que “se não for desta, terá de ser cesariana”. Nesse momento, já estão a utilizar as ventosas. Seguem-se mais gritos da Isabel, mas já fracos de tanto esforço. Eu já não me consigo acalmar, e emocionalmente estou de rastos – numa impotência absoluta para fazer seja o que for, excepto esperar que tudo corra pelo melhor.

04

2 de Dezembro, 12h42

Beijo a Isabel, que ainda recupera o fôlego e acalma a respiração. Não oiço nem ligo às pessoas à minha volta. Ela está bem e é tudo o que agora desejava. Ela pergunta pelo bebé repetidamente e porque não o ouve a chorar. Após mais alguns minutos de carinhos, colocam o Gabriel no peito dela, limpo e tranquilo, perfeitamente saudável e de olhos abertos, com quase três quilos e meio. Praticamente não chorou. Quando “saiu”, às 12h27, soltou duas choradelas rápidas e acalmou-se. Ao entrar na sala, vi que já estava limpo e a ser vestido e, estando tudo bem com o bebé, segui directo para junto da Isabel. Agora, que estamos todos juntos, observo uma pequena criatura inchada que nos olha com ar interrogativo, nitidamente exausto mas ansioso de perceber a confusão de barulhos e luzes que o rodeia. “Agora sou pai.” penso com estranheza e ainda me habituando à ideia. Agora tenho um propósito absoluto, incontornável, algo que faz tudo o resto parecer supérfluo e pouco importante – e isto torna tudo mais fácil. Vai correr bem. E para começar esta tarefa em beleza, beijo os meus dois maiores amores.

Texto e fotografias por Vasco Trindade


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