O teu parto

24 de Janeiro de 2016. Domingo. Dia de eleições presidenciais. Fomos votar de manhã. Estava bem disposta com o cansaço normal de uma grande barriga e um toddler a pedir colo. Por esta altura já tinha apostas de quando nascerias. A Patrícia jurava que seria a 25, na lua cheia. Eu não tinha qualquer sintoma para além de cansaço acumulado. Tinha consulta das 40 semanas no hospital daí a 2 dias e só pensava: não quero nada ir àquela consulta!!

O Marcelo ganhou, eu estava ao computador e lembrei-me de ir ler a oração à lua cheia... estou pronta filha, podes vir...

Pouco tempo depois vou à casa de banho e quando me sento sinto algo a rasgar... e, depressa, líquido a escorrer pelas pernas. Não queria acreditar, sempre seria na lua cheia... apresso-me a ir ao chat comunicar o que se estava a passar às minhas doulas. Resposta pronta da Yolande: “queres ver que não aguentaste a emoção de ver o Marcelo ganhar!!” Esta é uma das mulheres que eu escolhi para me acompanhar nesta jornada, das únicas capazes de me pôr a rir a toda a hora! Ela liga-me e diz-me que tem de aguardar alguém que lhe fique com o miúdo... a Elisa não se podia ausentar por causa dos meninos dela. Disse-lhes que estava bem, não tinha dores. Eu espero.

Desço até à sala, continuo a perder líquido. O teu irmão está a ver um filme, comunico ao teu pai o que se está a passar. Ele conversa com ele, pergunta-lhe se não se importa de ir dormir aos avós. Ele aceita prontamente! Primeiro receio ultrapassado!

Já perto das 22h, fico sozinha em casa, sem dores, só moinha. Quando o teu pai regressa já andava eu agarrada aos móveis. Deambulei pela casa, tratei dos últimos preparativos. A cada contração parava e vocalizava. Benditas aulas de canto pré-natal! A Yolande que não chegava... as contrações estavam cada vez mais próximas e intensas. O teu pai pergunta-me se não é melhor arrancarmos... tinha muito receio de ir cedo para o hospital, queria fazer a maior parte do trabalho de parto em casa, do G. durou tanto tempo... mas estas dores eram diferentes! Intensas e longas... Decidimos arrancar para o hospital. Aquela foi a viagem de 5 minutos de carro mais incómoda da minha vida! Sem cinto, agarrada ao puxador da porta, de olhos fechados... era quase meia noite, pelo que tivemos de entrar pelas urgências, as outras portas já estavam fechadas... loooongos corredores, não me quero lembrar desta parte...

Faço a admissão, sou chamada pouco depois. Já a custo a enfermeira diz que tem de me observar. “7cm, isto vai ser rápido!” Não pude deixar de esboçar um sorriso, a minha intuição estava certa, estava quase! Entrego-lhes o plano de parto e comunico que a minha doula será a acompanhante. O teu pai entra, fica com a minha roupa, despedimo-nos com um até já.

A muito custo sentei-me na cadeira de rodas que me levou até à sala de partos, (diferente da de 2012) onde fiquei de pé, ligeiramente curvada sobre a marquesa e mais tarde agarrada à peanut ball.

Eu tenho memórias menos boas do HGO, tive receio de reviver algumas práticas, mas decidimos arriscar. Em primeiro lugar pela proximidade, mas também porque desta vez quando fiz nova visita à maternidade, senti empatia e muita vontade de mudar. Está longe de ser um hospital maravilhoso, mas eu ia ciente dos prós e contras da nossa escolha.

Entra na sala a enfermeira Rita...

“Rita! Ainda bem que está aqui!!!”

A Rita foi a enfermeira parteira que nos fez a visita à maternidade. Super acessível e amável. Fiquei tão contente de a ver! Ela foi uma peça fundamental no desenrolar do trabalho de parto, respeitou-me, ela sabia o que eu queria.

Pouco tempo depois entra a Yolande. Finalmente! Que bom ter-te aqui <3

Para além de nós estava uma enfermeira belga estagiária.

A partir daqui as memórias diluem-se, perco a noção do tempo... mas não da audição... o que farias se a tua doula trauteasse uma qualquer música estilo rádio Comercial ao teu lado? Lembro-me de ter pensado, ela trouxe música dela para o MEU PARTO?? O que nos rimos depois com isto... a Rita perguntou se podia ligar o rádio, a resposta foi afirmativa mas eu não me lembro!! Então estava eu em plena fase de transição com a minha doula e a enfermeira Rita a cantar grandes hits da praça!

Vocalizava a cada contração, sentia um grande alívio ao fazê-lo... estive sempre de pé. Após uma contração dolorosa entra uma médica na sala a mandar-me calar... estava a assustar as outras grávidas... não percebo como se manda calar alguém que está a parir sem epidural. Nesta fase a Yolande foi crucial, ela protegeu-me, envolveu-me com os seus braços, disse-me uma coisa ao ouvido e deu-me uma toalhinha para eu morder (mais tarde soube que ela já tinha levado uma dentada, doula sofre). Para além deste episódio ouve ainda outro médico que se alarmou com o facto de eu não estar a ser monitorizada... havia pedido monitorização intermitente mas ele achou que tinha de implicar com a “senhora que estava a assustar as outras”... nessa altura paniquei um bocadinho, porque me relembrei do episódio de bradicardia do teu irmão... mas mais uma vez a Rita conseguiu, de maneira exemplar e profissional, “afastar” o médico e proteger o trabalho (de parto) que estava a fazer.

A partir daqui foi tudo muito rápido, lembro-me de ter verbalizado que tinha medo, que doía muito, que não ia conseguir! Nessa altura a Rita ofereceu-me o Livopan. E perguntam vocês, o que é o Livopan? Livopan é o chamado “gás do riso.” Uma analgesia alternativa à epidural. QUERO! TRAZ O LIVOPAN! Recebo instruções para inalar o gás para poder fazer o efeito desejado. Yeah right, esqueçam, não ouvi nada, não resultou. Puro efeito placebo e alvo de chacota.

A famosa vontade de fazer força. Lembro-me de ter sentido um medo profundo, senti-me no infinito, num lugar sem linha de horizonte... e não lhe dei no gás! A Rita observa-me, “Marta ela está mesmo aqui, como vai ser?”

Eu não me consigo mexer!

“Então vai mesmo assim!”

A Rita veste a bata, coloca plásticos no chão. Não precisei de fazer força, o meu corpo fez por mim. É avassalador! Senti-me a arquear ligeiramente as pernas e a colocar-me em picos dos pés... não me lembro quantas contrações foram necessárias, senti-te a coroar e depois saíste de uma só vez. Sangue, líquido, splash! Na minha cabeça a imagem de um potro a nascer, de pé. Yolande comovida: “a tua filha é linda, ela é linda Marta!”

Mais tarde contou-me que a tinhas agarrado no dedo, quando a mão dela amparava as minhas costas. Que emoção, que momento! Passas por baixo das minhas pernas, ainda com o cordão, sento-me no banco que colocam atrás e vens para o meu colo. Não saíste mais de lá. Conseguimos filha, já não estás sozinha.

Yolande troca com o teu pai. A primeira coisa que lhe digo é: tira fotografias. Esta foi a primeira.

O cenário era digno do CSI, sangue, lembro-me de ter as unhas cheias de sangue que custou a sair. Ele admira-se com a rapidez do parto. Vinha preparado para esperar. Ele não te viu nascer, não devia ser uma escolha e sim um direito da mãe a presença do pai e um acompanhante... um dia lá chegaremos. As horas seguintes foram de namoro, ele cortou o cordão quando este parou de pulsar e filmou a placenta a nascer. Foi ele que te vestiu pela primeira vez. Rimo-nos dos barulhinhos que fazias com a boca, parecias mortinha de fome... procuraste a mama sozinha, foi lindo, és linda. Tivemos muito tempo, o bloco estava com pouca afluência, ninguém nos chateou. A Yolande pôde entrar e tirou-nos esta fotografia. Estás com aquela cara fresca de quem não fez nada.

A nossa menina. Cabeluda, gordinha, linda. Nasceste em amor e respeito à 1h20 da madrugada de dia 25 de Janeiro. Noite de lua cheia.

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